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O fim do muro de Berlim e a consequente expansão da chamada democracia liberal, assente na separação e interdependência de poderes, na soberania popular por via da representação parlamentar e do voto, na pluralidade política, ideológica, religiosa, racial, sexual, entre outras, no primado axiológico da dignidade humana como fundamento dos direitos constitucionais de natureza fundamental, levou a que Fukuyama defende-se a teoria do “fim da história”. Um julgamento que viemos a saber precipitado. A crise de 2008 das dívidas soberanas foi responsável pelo agravamento das condições socioeconómicas de milhões de pessoas no Ocidente (e, naturalmente, não apenas), em especial a designada classe operária que se viu abandonada pelas transformações laborais impressas pela globalização, nomeadamente a transferência da produção industrial para a Ásia. A precariedade laboral abriu caminho para o surgimento de um ressentimento generalizado que precisava ser canalizado. Nas páginas imediatas à crise, a Esquerda (v.g. BE, Syriza, entre outros) foi capaz de aglutinar tais vozes, através de um discurso de natureza populista baseado na divisão entre uma elite corrupta e indiferente e um povo estrangulado pelos interesses económicos que tais elites protegiam. No entanto, esse alinhamento da Esquerda foi apenas uma pausa numa tendência que já se vinha manifestando e que ganhou enorme relevo a partir do homicídio de George Floyd: a concentração numa agenda pós-material, voltada aos direitos civis e de igualdade de diferentes minorias. A chamada agenda woke, de fortíssima dimensão urbana, tomou conta dos programas e da orientação dos partidos políticos de Esquerda, que foram abandonando ou secundarizando as lutas pelas condições laborais e a agregação sindical, um maior equilíbrio na redistribuição da riqueza, a pobreza material. Alimentada por uma populações urbanas com suficiente segurança económica, a agenda pós-material identitária da Esquerda vingou na interseção entre antirracismo e direitos LGBTIQ+, concentrando-se em diversas franjas e tipos de marginalização, que se manifestou em combates tais como pela descolonização da cultura, pelo antirracismo, do mais moderado ao mais…

Fragilidade Branca, conceito associado a Robin DiAngelo, integra um amplo campo teórico-militante antirracista. Operatoriamente interessante e válido, o conceito posiciona a discussão sobre o racismo no quadro de um sistema social ocidental marcado pela branquitude como um sistema de poder racial que desnivela a sociedade, mantendo as pessoas brancas numa circunstância de poder onde qualquer denúncia é objeto de rejeição, situação que denota a fragilidade branca em lidar com o problema racial.
Como todas as teorias sobre o racismo, a sua lente parte da sociedade norte-americana e embora operatória noutras geografias padece, amiúde, da devida contextualização.

Robin DiAngelo tornou-se num dos nomes mais respeitados da literatura sobre o racismo e admirados entre os membros da dita cultura woke. As suas propostas teóricas são desestabilizadoras, funcionando como instrumento de reflexão amplamente pertinente. Mas qual é o pensamento de DiAngelo, e o que é a Fragilidade Branca? O conceito de Fragilidade Branca integra um amplo campo teórico-militante antirracista. Operatoriamente interessante e válido, o conceito posiciona a discussão sobre o racismo no quadro de um sistema social ocidental marcado pela branquitude como um sistema de poder racial que desnivela a sociedade, mantendo as pessoas brancas numa circunstância de poder onde qualquer denúncia é objeto de rejeição, situação que denota a fragilidade branca em lidar com o problema racial. Como todas as teorias sobre o racismo, a sua lente parte da sociedade norte-americana e embora operatória noutras geografias padece, amiúde, da devida contextualização. DiAngelo parte de uma premissa essencial em sociedades amplamente racializadas como a dos Estados Unidos da América: a crença prevalecente na existência de diferenças biológicas e genéticas entre as raças, que vão além das evidentes, como o tom de pele, formato dos olhos ou textura capilar, e características não visíveis, mas socialmente construídas e imaginadas, como sexualidade, habilidades atléticas ou competências matemáticas. Trata-se de estereótipos que organizam a sociedade, mas que não correspondem à complexidade da realidade. A segunda premissa de DiAngelo, em linha com a literatura atual, é a de que a raça é uma construção social. É por aqui que começo. A Construção Social da Raça DiAngelo constrói o seu argumento a partir do estudo de caso dos EUA, um país construído entre a ideologia da liberdade e a realidade do genocídio, escravidão e colonização. Para resolver o problema, Thomas Jefferson pediu aos cientistas que confirmassem a crença de que as diferentes raças possuem diferenças entre elas, sendo os índios culturalmente deficientes, mas com propensão para a solução dessa falha, e os negros natural e…

A Teoria Crítica da Raça (TCR) não é nova, tendo, aliás, realizado o seu trajeto teórico e de debate. Mas permanece relativamente desconhecida, estando associada, no máximo, ao ativismo negro e suas propostas sobre a sociedade, branquitude, culpa branca, hegemonia racial, etc. No entanto, a TCR surge como um enfoque teórico dentro da Teoria Jurídica Crítica, uma vez que a natureza abstrata do Direito, a sua neutralidade e epistemologia partiam da desconsideração da natureza racial do sistema jurídico e político norte-americano. Em rigor, quando pensamos no “homem médio”, figura do direito que permite identificar uma ética socialmente dominante, e que deriva da figura jurídica romana do bonus pater familias, numa ótica cultural ele será um homem branco heterossexual, de onde se subtrai a ideia de «diligência própria de um bom chefe de família». Ainda que na sua condição de metáfora, a ideia detém um substrato normativo patriarcal e racial sobre a sociedade. É nesse contexto que a TCR ganha relevo, uma vez que argumentam que as decisões judiciais explicitam um discurso ideológico formado pelo racismo. Isto faz com as decisões partam de uma grelha de leitura enviesada que opera numa hierarquia racial a partir da qual é subtraída a sentença, razão pela qual o carcere de pessoas negras é mais frequente e mais longo do que no caso de pessoas brancas. Para quem não está familiarizado, a TCR nasce na década de 1970 é, então, um movimento de ativistas e académicos (como Derrick Bell, Alan Freeman e Richard Delgado) que estudam e atuam no sentido de transformar a relação entre raça, racismo e poder que se distancia da luta pelos direitos civis que marcou a primeira etapa da luta antirracista pós-escravatura por não buscar uma mudança gradual, mas antes pelo questionamento da própria ordem liberal que forma os EUA, incluindo a sua teoria da igualdade, o discurso jurídico, o racionalismo iluminista e os princípios neutros do Direito Constitucional. A TCR…

The present post presents tendencies of political and social Afro-Latin-American thinking, showing that there is no unique black community or black thinking.

From civil rights to Black Lives Matter, we are being addressed to this basic idea that Black people are all, from the very beginning, part of “The Struggle” in the exact and unique terms of Critical Race Theory and woke ideology. This post takes Frank A. Guridy and Juliet Hooker’s writings to stress the tendencies of political and social Afro-Latin-American thinking. From the beginning of the XX century, the Independent Party of Color in Cuba had an essential outlook on what it meant to be an afro-Cuban. Alongside the condemnation of scientific racism and the defence of racial equality, the party was committed to a sense of black respectability that included the subordination of women and full integration of black people into society with the adoption of European cultural patterns. According to Critical Theory, this kind of social accommodation is interpreted today as part of coloniality but can be accepted as a political and social choice by the black community. This example illustrates the main argument: that Afro-Latin-American thinking (i.e. western black thinking) is not monolithic. This is an important statement that has been disregarded in those people’s thinking history. As the authors say, Afro-Latin-American intellectuals disagree on the most effective way to contest social and political inequalities. They also differ in terms of the reasons for that inequality and whether black people should mobilise themselves as a specific group or not. This is both theoretical and politically relevant in a time of monolithic woke antiracism thinking. Afro-Latin American intellectuals engaged with a variety of sources and ideas, rejecting and adapting them, engaging in the central debates of Latin American politics: disputes over the meaning of freedom and citizenship, as well as over the forms of political community that would best serve new nations in the postcolonial period. Those different approaches were expressed in the various political movements. Most tended to gravitate toward political movements that advocated racially inclusive visions…

Recensão da obra Woke Racism de John McWhorter, linguista e professor universitário, que denuncia uma transformação do combate ao racismo numa religião persecutória.

O livro não é sobre a existência ou não de racismo. O autor é perentório, para que não restem dúvidas, de que o racismo existe, é um problema sério na sociedade norte-americana (estadunidense), que afeta a vida das pessoas negras e racializadas de modo evidente e brutal. Dito isto, o livro é sobre a ascensão de uma agenda ideológica woke antirracista que não permite que se faça humor ou critique uma pessoa não-branca sem se ser cancelado, sobre uma manifestação de natureza absolutista e, segundo o autor, religiosa, de ativismo que ao abrigo da ideia de “desmantelar estruturas” sociais racistas visa converter toda a população a uma leitura única do fenómeno racial americano baseada numa grelha rígida de “opressor vs oprimido”.  Em rigor, o livro não aparece em contramão, por exemplo, do livro de René Eddo-Lodge, mas foca-se nas pessoas brancas que Eddo-Lodge menciona que entre lágrimas lhe pediam para não desistir dos brancos. Não é por acaso que John McWhorter inicia o livro referindo o caso da cronista Alison Roman do New York Times que em 2020 foi suspensa por ter criticado uma colega, Chrissy Teigen, e a mentora de estilo de vida Marie Kondo. O Twitter entrou em ebulição porque uma mulher branca havia criticado duas pessoas não-brancas, abusando do seu «privilégio branco» para diminuir duas pessoas não-brancas. No mesmo ano, Neal-Boyle reitora do curso de enfermagem da Universidade de Massachusetts Lowell foi despedida por no rescaldo do assassinato de George Floyd por ter afirmado que as vidas negras importam (Black Lives Matter), mas igualmente todas as demais vidas importam, porque ninguém deveria viver com medo por causa da sua aparência ou do que acredita. O facto de ter iniciado o seu comunicado referindo a história trágica do racismo e enviesamento que continuam presentes nos EUA, o facto de ter referido um “(…) but also, Everyone’s life matters”, foi o suficiente para ter sido alvo de fúria em massas. Ainda em 2020,…

O presente texto realiza uma recensão macro da obra de Francis Fukuyama, Identidades: a Exigência de Dignidade e a Política do Ressentimento, publicada em 2018.

Identidades: a Exigência de Dignidade e a Política do Ressentimento, de Francis Fukuyama, é a obra que serve de base ao artigo publicado um ano depois, na Foreign Affairs, com o título “Against Identity Politics: The New Tribalism and the Crisis of Democracy”. O ponto de partida de Fukuyama é a difusão dos populismos nacionalistas com uma forte expressão autoritária que estão em expansão por todo o mundo. O que o autor visa é, então, reconhecendo esse cenário, entender as causas da mudança da Democracia liberal para um tipo de regime cada vez menos conotado com aquela. Para o autor, o slogan de Donald Trump, “America first”, é o sintoma mais evidente do modo como os líderes populistas procuram estabelecer uma ligação direita com o “povo”, desconsiderando as instituições que formam o garante dos Estados democráticos, como os tribunais, o parlamento e os meios de comunicação social. Esta vaga de populismo desde o começo de 2000, corresponde a um recuo global face à terceira vaga de democratização proposta por Huntington. Procurando explicar o fenómeno, Fukuyama alega que as democracias atuais não foram capazes de garantir o reconhecimento de dignidade a todos os sujeitos, mesmo que em princípio tal esteja presente por via dos Direitos Humanos, do primado da lei (rule of law) e pelo direito de voto. A presença desse princípio não traduz que “as pessoas sejam respeitadas igualmente na prática, em particular os membros dos grupos com um historial de marginalização” (p. 15). A situação expande-se com a presença das questões identitárias que funcionam como força motriz da política atual. Acresce que entre 2000 e 2016 metade dos norte-americanos viu os seus rendimentos estagnarem, enquanto a globalização agudizou disparidades e gerou uma onda de left-behind. A consequência foi a emergência de um fosso entre ricos e pobres, onde a classe média se foi esvaziando. O autor salienta, então, a mudança de paradigma da luta política. Se ao longo do…

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