Quando saímos do universo de referência abraâmico somos confrontados com um problema de fundo que diz respeito ao alcance do conceito de «religião». Este conceito é dilemático quando nos dispomos a olhar para as culturas africanas. Nesse cenário, é sempre operatório retomar a eficaz definição de Kishimoto [1]de que cada contexto cultural gera a sua própria definição de religião. Aceitarmos tal postulado é recusarmos noções herméticas que esquadrinham os fenómenos em religiosos e não religiosos a partir de um esquema particular do que se considera por religião. Rodney Needham [2]já havia debatido sobre o problema que constitui a tradução do conceito de «religião» para línguas não-latinas. Mais tarde, Lenclund [3]amplia a discussão ao reconhecer o entrave que constitui o nosso modelo ocidental de crença para o estabelecimento de uma análise de outras realidades culturais-religiosas. Não obstante a proposta de Lenclund, autores posteriores trazem propostas teóricas que emaranham o olhar a partir do etnocentrismo: Christine Bell [4], com a oposição entre “ritual” e “religião”, ou Rivière [5] (segundo a linha de Hammond [6]), com a oposição clássica entre “religião” e “magia”.

Um dos primeiros obstáculos à análise das religiões em África, em particular no quadro das ditas autóctones, é admissão da teoria de separação entre sagrado e profano[7]. Como argumentaram, primeiro Awolalu[8]e posteriormente Appiah[9], a religião/ritualidade não se separa da vida quotidiana. Pelo contrário, ela entra por todas as atividades do dia-a-dia, assumindo um papel explicativo e justificativo em todos os elementos e acontecimentos correntes. A religião adquire uma dimensão de “facto social total”[10], operando como produto e produtora de ordem e agregação social [11]. Seguindo esse roteiro, Robin Horton[12]reconhece o papel de «comunhão» próprio das religiões africanas, ampliando a ideia para atitudes de «explicação», «previsão» e «controlo».

A dimensão de explicação encontra-se com o fenómeno religioso ab initio, dizendo respeito à religião como uma linguagem metafórica que visa produzir um conjunto de narrativas que elucidam sobre os fenómenos naturais e o mundo. Por seu turno, a previsão refere-se aos fenómenos de adivinhação, os quais visam prever acontecimentos importantes na vida da comunidade, ao passo que o controlo diz respeito à própria ritualidade, i.e., à capacidade da ação ritual controlar fenómenos negativos na vida social, como chuvas intensas, secas, cheias, epidemias.


[1]KISHIMOTO, Hideo,“An operational definition of religion”, Numen, 8 (3), 1961, pp. 236-240.

[2]NEEDHAM, Rodney, Belief, Language and Experience, Oxford, Basil Blackwell, 1972.

[3]LENCLUD, Gérard, “Vues de l’esprit, art de l’autre: L’ethnologie et les croyances en pays de savoir”, Terrain, 14, 1990, pp. 5-19.

[4]BELL, Christine, Ritual: Perspective and Dimensions, New York, Oxford University Press, 1992.

[5]RIVIÈRE, Claude, Socio-anthropologie des religions, Paris, Armand Colin, 1997.

[6]HAMMOND, Dorothy, “A problem in semantics”, American Anthropologist72 (6), 1970, pp. 1349-1356.

[7]ELIADE, Mircea, Le sacré et le profane, Rowohlt Taschenbuchverlag GmbH, 1957.

[8] AWOLALU, Joseph Omosade, “What is African traditional religion?”Studies in Comparative Religion, 10 (2), 1976, pp. 1-10.

[9]  APPIAH, Kwame Anthony, “African traditional religions”, In Routledge Encyclopedia of Philosophy, London: Routledge, 1998.

[10]MAUSS, Marcel, Essai sur le don forme et raison de l’échange dans les sociétés archaïques, Paris: Presses Universitaires de France, 1925.

[11] DURKHEIM, Émile, Les formes élémentaires de la vie religieuse: Le système totémique en Australie, Paris, Alcan, 1912.

[12] HORTON, Robin, “A definition of religion, and its uses”The Journal of the Royal Anthropological Institute of Great Britain and Ireland, 90 (2), 1960, pp. 201-226.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Back to Top
error: Content is protected !!