É em nós que as paisagens têm paisagem.

Fernando Pessoa

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A partir da noção de contexto cultural como produtor de uma definição particular de «religião», teoria proposta por Kishimoto [1], podemos adensar o argumento em contexto africano sobre a premissa de «paisagem». Numa tentativa de definir cientificamente a ideia de paisagem, escreve Rui Mataloto [2] que

A paisagem é, no fundo, a percepção cognitiva da envolvente exterior pelo elemento humano, constituindo a memória a tomada de consciência da acção cognoscente. Assim, na realidade, paisagem e memória resultam num binómio inseparável, de total complementaridade, cuja construção corre em paralelo. Por outro lado, julgo ser da construção e partilha de uma paisagem, e logo de uma memória, pelo grupo ou pelo indivíduo, que surge a noção de identidade, enquanto sentimento de inclusão/pertença; isto é, a identidade é a partilha de uma memória colectiva. Deste modo, a construção da paisagem faz-se (…) principalmente, pela inclusão, muitas vezes ritualizada, de novas conceptualizações, que geram uma nova semântica da paisagem.

Fora dos postulados da Geografia, sabemos que a memória coletiva é produzida com a intenção de estabelecer um passado referencial [3], ao mesmo tempo que ela reforça a ideologia de um grupo [4]. A memória coletiva é, portanto, um ato intrinsecamente político. No entanto, à margem desta questão, parece profícuo apoiarmo-nos na bengala da Geografia e nos termos de Mataloto. Com efeito, quando recorremos à Antropologia da memória e nos demoramos sobre a temática da «nostalgia», compreendemos o efeito que a paisagem tem na memória como relação espaço-tempo. São os lieux de mémoirede Pierre Nora [5], os espaços como parte determinante sobre a qual se edificam as lembranças. Uma vez que a memória diz respeito à emoção, esses «lugares de memória» recebem uma carga poética, tornando-se referências de topofilia[6].

Quando aportada à religião, retomando Kishimoto, seria a paisagem a ditar as semânticas religiosas. Com efeito, a relação estabelecida com as florestas, montanhas e rios nas culturas celtas e viking é o cerne da linguagem religiosa [7]. O culto de Olokun [8] depende, necessariamente, do mar, do tenebroso, do perigoso e, ao mesmo tempo, da fonte de sustento que representa para as povoações costeiras do Golfo do Benim. Seja por via da floresta, seja da montanha, dos rios, lagos, das planícies, dos mares, ou outras caraterísticas dos lugares, é a paisagem que infere na construção da linguagem religiosa, sendo sobre esses espaços que se concebe a ação ritual: a árvore da vida que é sacralizada e objeto de sacrifícios e oferendas, o mar que é alimentado para que não engula os humanos e providencie alimento, a montanha que é alimentada para que não sofra derrocada, o rio que é alimentado para que não suba demais causando a destruição, mas tenha o caudal suficiente para que fertilize. E assim por diante, a paisagem infere na relação religiosa que lhe é devotada.


[1] KISHIMOTO, Hideo, “An operational definition of religion”, Numen, 8 (3), 1961, pp. 236-240.

[2] MATALOTO, Rui, “Paisagem, memória e identidade: tumulações megalíticas no pós-megalitismo alto-alentejano”,Revista Portuguesa de Arqueologia10 (1), 2007, pp. 123-140.

[3] HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence (eds.), The Invention of Tradition, Cambridge University Press, 1983.

[4] TRIAUD, Jean-Louis, “Lieux de mémoire et passés composés”, in J. P. Chrétien et J. Triaud (eds.), Histoire d’Afrique: les enjeux de mémoire, Paris, Karthala éditions, 1999.

[5] NORA, Pierre, “Entre mémoire et histoire”, in P. Nora et C. Ageron (eds.), Les lieux de mémoire, Quarto Gallimard, V.1, pp. 23-43, 1984.

[6] BACHELARD, Gaston, Lapoétiquedel’espace, Paris: Les Presses universitaires de France, 1957; TUAN, Yi-Fu, Topofilia, São Paulo: DIFEL, 1980.

[7] OLIVIERI, Filippo Lourenço, “Os celtas e os cultos das águas: crenças e rituais”Brathair-Revista De Estudos Celtas E Germânicos6(2), 2006, pp. 79-88.

[8] ROSEN, Norma, “Olokun Worship”African arts22 (3), 1989, pp. 44-53.

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