O contexto do baixo Congo e de Angola constitui interessante geografia religiosa em período colonial. Desde a chegada de Diogo Cão à bacia do Congo em 1482, a presença de missões católicas no Reino do Congo foi uma constante, sendo que no rescaldo da Conferência de Berlim de 1884, deu-se um impulso de missões protestantes, em particular «batistas», com multiplicação pelo interior das colónias belga e portuguesa [1]. Segundo Freston (op. cit.), teriam sido tais igrejas a fermentar uma consciência independentista, além de terem contribuído para a formação de igrejas cristãs locais com progressiva autonomia. Com efeito, tais igrejas africanas proclamavam a instalação de uma nova era espiritual livre da colonização e dos missionarismos europeus, uma vez que o messias chegaria para os africanos. Nesses termos, tais igrejas continham um discurso de resistência espiritual e, assim, política.

Simão Gonçalves Toco nasceu em Leopoldville (atual Kinshasa), em 1918, sendo de matriz étnica bacongo, e recebeu formação nas missões batistas. A igreja de Simão Toco nasceu em 1949, após a “descida” do Espírito Santo ao seu fundador.

O facto da maioria dos seus seguidores serem de origem angolana, fez com que fossem presos e deportados do Congo Belga sob a acusação de conspiração, em 1950. Já em território angolano, Simão Toco e os seus seguidores produziram uma realidade religiosa que transcendeu a questão étnica, tornando-se num verdadeiro fenómeno religioso angolano. O cristianismo proposto por Toco assentava no conceito reformistas de «relembrança» [2], um postulado teológico que rejeitava o que seria uma versão “branca”, “colonial” e “europeia” do cristianismo, apostando numa restauração de uma versão original do cristianismo, livre da opressão e da hierarquia. Seria, portanto, um cristianismo de apelo anti status quo: a situação colonial [3].

Apesar da intensa perseguição de que foi alvo no final do período colonial, a Igreja Tocoísta (oficialmente “Igreja do Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo, Relembrada a 25 de Julho de 1949 pela Sua Santidade o Profeta Simão Gonçalves Toco”) observou um processo de institucionalização por via da correspondência que Simão Toco manteve, a partir do seu exílio na ilha de São Miguel, Açores, com os seus seguidores em Luanda. Nessa troca de missivas, Toco desenhou a estrutura do corpo eclesiástico, composto por direções, grupos e classes, da doutrina, assente numa ideia reformista, conservadora e numa teologia de carisma, do poder da visão e da profecia [4], bem como a ideologia social, segundo a qual a sua igreja seria um interolocutor pacífico na construção de uma Angola pós-independência. O sucesso desta iniciativa de Simão Toco foi o reconhecimento legal pelo governo português, em 1974. No entanto, se a independência de Angola em 1975 confirma a legitimidade do movimento de Simão Toco, o governo de Agostinho Neto traz a perseguição religiosa generalizada, seguindo uma ideologia comunista, pelo que a Igreja Tocoísta entra na clandestinidade, novamente. Com a chegada ao governo de José Eduardo dos Santos, a política relativa à religião é moderada, tendo o reconhecimento à Igreja Tocoísta em 1992.

Com efeito, este problema de reconhecimento legal da Igreja de Simão Toco resultou, primeiramente da sua posição anticolonial e em favor da libertação espiritual do africano, da qual resultou a perseguição e expulsão do Congo Belga e, posteriormente, já em território angolano, o exílio nos Açores por ordem da PIDE, entre 1963 e 1974. Em segundo lugar, resultava do espírito reformista de Toco que proibia o pegar nas armas, levando uma recriminação de ambos os lados da disputa. Por fim, e nessa linha, o facto de Toco ter sido utilizado pelo regime colonial para desmobilizar a revolta no Uíge, e algumas declarações públicas tidas por pró-colonialistas levaram ao agudizar da desconfiança política. Por esta razão o tocoismo foi alvo de perseguição no pós-independência. A postura pacifista de Toco que estava na sua intenção de se apresentar como interlocutor apartidário na construção de uma nova Angola, esbarrou na desconfiança e nas críticas dos vários partidos políticos envolvidos na negociação, originando forte repressão até à morte de Simão Toco, na passagem de ano de 1983 para 1984.

O pós-Simão Toco

 Hoje, a igreja tocoista é a segunda maior igreja cristã em Angola, a seguir à Igreja Católica, sendo a única considerada “autóctone” a possuir implantação nacional, com mais de um milhão de seguidores. De igual modo, tornou-se numa igreja de cariz universalista, extrapolando as fronteiras angolanas e africanas, experienciando um processo de transnacionalização e de transcontinentalização, após o falecimento do seu fundador, em 1984. No entanto, o período de transição não foi pacífico. A morte de Simão Toco desencadeou uma disputa interna entre os diferentes setores da igreja, gerando processos de divisão. Tais conflitos, na opinião de Ruy Blanes e Ramon Sarró (op. cit.), derivam de problemas de «geração», «memória» e «presença». As tensões em torno da presença são explicitadas entre aqueles que se recordam efetivamente da presença física do profeta e aqueles que não o lembram, mas que inventaram novas formas de o tornar “presente” nas suas vidas e atividade religiosa. Na divisão da Igreja Tocoísta destaca-se o grupo dos “Doze mais velhos”, que reclama deter a herança original do profeta, pois é entre eles que se encontram os sobreviventes e descendentes dos primeiros seguidores de Simão Toco. Do outro lado está a ala “universal”, a mais representativa do ponto de vista demográfico, mediático e financeiro. Dois outros grupos emergiram, um apelidado “18 classes e 16 tribos”, posteriormente “Igreja Mundial”, e um outro conhecido por “Palanca/prenda” ou “Mboma”. Esta última fação é liderada por Temo António.

Na sequência destes desentendimentos, na década de 1990 o sentimento prevalecente é de que a igreja poderia estar em processo de dissolução. Neste período, contudo, começaram a surgir relatos do aparecimento do “espírito” de Simão Toco a vários crentes, trazendo, sempre, a mesma mensagem: a necessidade de reunificação da igreja. Um desses casos foi o de Fernando Tchiwale, que viria a ser conhecido por “o Mensageiro”, oriundo de Capelongo, e que chega a Luanda em 1996 com uma mensagem para as várias lideranças religiosas: Toco pretendia voltar à Terra, mas não sabia onde se encontrava a sua casa, tendo em conta as separações que existiam.

O ano de 2000, todavia, trouxe uma mudança profunda à Igreja. Um jovem chamado Afonso Nunes, natural da região de Simão Toco, chega a Luanda trazido pelos vates da sua igreja local. Segundo eles, Afonso tivera uma série de sonhos onde lhe surgia Simão Toco, sendo que num deles o profeta “personificaria” o seu corpo, i.e., que após a morte de Toco e a sua ascensão aos céus, Toco havia descido à terra para habitar o corpo de Afonso Nunes, perdendo, este último, a sua individualidade. Este fenómeno é apelidado na Igreja de “revestimento espiritual” ou “personificação”. Afonso Nunes trazia uma tripla mensagem: reunificar a Igreja, construir uma “casa”, i.e., um templo central, e por fim “universalizar” a igreja, denominando-a de “Igreja no Mundo”.

A partir deste momento, Afonso Nunes passou a ser designado por “Simão Toco regressado”, tendo-se reunido com as várias lideranças. Tchiwale reuniu-se com Nunes e tendo concluído que a pessoa que falou com Tchiwale em 1996 era a mesma que falara com Nunes em 2000, aceitou a proposta deste último. O líder da Direção Central, Luzaísso Lutango, aceitou ceder o seu lugar a Nunes, reconhecendo a sua posição. No entanto, os “doze mais velhos” não acreditaram na personificação de Toco em Nunes, não por rejeição apriorística da reincarnação, mas antes porque a personalidade que recordavam de Toco era muito diferente da apresentada por Nunes. Inclusive, submeteram Nunes a um interrogatório sobre eventos concretos vividos em conjunto. No entanto, como as respostas obtidas não foram convincentes, negaram a reincarnação.

Paradoxalmente, a “presença” de Toco por via de Nunes é a base da implementação da Igreja entre as gerações mais jovens, os quais não se bastam com memórias distantes e relatos do profeta, mas que precisam da presença carismática do líder. Com Nunes a fação universal da igreja universalizou-se e tornou-se demograficamente dominante. Nunes coordena, presencialmente, a Transnacionalização para a Europa, outros países africanos e Brasil.

A dinâmica presente da igreja tocoísta decorre entre a divisão resultantes da crise de sucessão e uma tendência de difusão diaspórica e universalização, projeto ideológico do atual líder. Na visão dos tocoistas, as crises da igreja resultam de um processo previsto pelo profeta e refletido nas Escrituras, constituindo uma prova de fé que levará à unidade espiritual futura. Nos termos tocoistas, a crise faz parte da sua própria “história de sofrimento”, quer no período colonial, quer pós-colonial.


[1] FRESTON, Paul,Evangelicals and Politics in Asia, Africa and Latin America, Cambridge: Cambridge University Press, 2004.

[2] BLANES, Ruy, “O Messias entretanto já chegou. Relendo Balandier e o profetismo africano na Pós-Colônia”, Campos 10 (2), 2009, pp. 9-23.

[3] BALANDIER, Georges, “La Situation Coloniale”, Cahiers Internationaux de Sociologie 11, 1951, pp. 44-79

[4] BLANES, Ruy; SARRÓ, Ramon, “Geração, presença e memória: a Igreja Tocoísta em Angola”, Etnográfica19 (1), 2015, pp. 169-187.

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