A partir das conceções evolucionistas marcantes da viragem do séc. XIX para o séc. XX nasce a etnologia religiosa, partindo daquilo que Albert Marie Bros, em L’Ethnologie religieuse: introduction à l’étude comparée des religions primitives, chama de “factos religiosos observáveis nos povos primitivos” (1923: 15). Esta visão evolucionista das sociedades manteve-se por bastante tempo. Lewis Morgan, tido como um dos pioneiros da Antropologia Religiosa, em La Société Archaique, de 1877, afirma que as crenças religiosas estão ligadas ao domínio da imaginação e da afetividade, sendo, por tal, marcadas pelo princípio da incerteza, motivo pela qual as religiões «primitivas» seriam “grotescas” e “ininteligíveis”.

Apesar de se ter libertado das amarras metodológicas e conceptuais do evolucionismo – entrave determinante à construção de uma visão equitativa das culturas -, a disciplina mantém-se, ainda que já sob a designação de Antropologia das Religiões, como devotada ao estudo das formas religiosas nas sociedades primitivas (Radcliffe-Brown 1945). Não obstante, o funcionalismo britânico com Malinowski, Radcliffe-Brown e Evans-Pritchard) iria marcar a disciplina, ao estabelecer o lugar central dos estudos de campo sistemáticos e rigorosos, alterando o enfoque da origem da religião e o seu contributo para a formação das sociedades humanas, para as funções sociais da religião. Como viria a afirmar Radcliffe-Brown, em resposta a Lewis Morgan, “a função social da religião é independente da sua verdade ou falsidade, e as religiões que achamos falsas ou até absurdas e repugnantes, como das tribos selvagens, podem desempenhar um papel importante e eficaz no mecanismo social” (1945: 231). O funcionalismo, pese a sua relevância na formação de uma modelo etnográfico como base da análise, pecou por se centrar, sobremaneira, na função social da religião, descorando outros aspetos além da sua dimensão de produção social.

Na viragem do pós-segunda guerra, o estruturalismo de Lévi-Strauss centrou o debate sobre a religião no terreno dos aspetos psicológicos e sociais do simbolismo humano. Infelizmente reduziu o significado da religião no seio da Antropologia, ao defender que a importância do seu estudo se resume à inscrição no quadro maior que é o do entendimento do pensamento humano mais geral e das suas “traduções sociais”, i.e., ritos, instituições, etc., a partir das quais se compreender os universais culturais.

As décadas de 1950 e 1960 marcam o esgotamento do interesse pelo estudo das religiões, levando a um discurso de «esgotamento» do tema. Claude Lévi-Strauss chega a afirmar (1974) que a antropologia parecia ter-se afastado dos factos religiosos. Evans-Pritchard (1965), defende que a religião já não tem a mesma importância (central) que tinha para a Antropologia nos seus primórdios, justificando esse desinteresse com um acompanhamento das mudanças sociais, sendo que a antropologia seguia o desinteresse da sociedade pela religião.

A definição 

Entretanto, Roger Bastide (1978), retomando a abordagem de Claude Lévi-Strauss (1974b), numa entrada da Encyclopaedia Universalis, considera que a etnologia religiosa tem por princípio o estudo da diversidade das crenças ou das práticas das etnias umas em relação às outras, sendo que o conhecimento que produz “permanece localizado numa área cultural, num tipo de religião, animista, por exemplo, ou politeísta”, ao passo que a antropologia da religião tem por princípio descobrir as leis gerais do homem enquanto sujeito religioso. Isto significa, portanto, observar a religião a partir de materiais empíricos a fim de produzir modelos teóricos capazes de explicar a natureza humana a partir da sua natureza religiosa.

A Pluralidade 

Em resultado da geografia da disciplina, i.e., do facto desta se ter formulado no Ocidente, entre a Europa e os Estados Unidos, estabelece-se a ilusão de que existe apenas uma antropologia das religiões. É por isso que escreve Luís Batalha, “existe uma antropologia americana, outra britânica, outra francesa, outra chinesa, outra japonesa, outra alemã, etc. Ou, talvez, em cada um daqueles países existam mesmo várias antropologias” (1998: 320). Isto é compreensível na medida em que, como afirma Kishimoto (1961), cada contexto cultural produz a sua própria definição de «religião», o que demanda por metodologias e conceptualizações localizadas que se globalizam no sentido amplo de gerar ferramentas para a disciplina, ao invés de se localizarem conceções globalizadas que tendem a pecar pela incapacidade de se adequarem às realidades em estudo.

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