O livro de Edward Evans-Pritchard, publicado em 1937, sob o título Witchcraft, Oracles, and Magic among the Azande, permanece um dos mais marcantes trabalhos nos estudos antropológicos. Fundamental na validação do modelo etnográfico, este livro resulta de vinte meses de trabalho de campo, realizado no sul do Sudão, entre 1926 e 1929. Trata-se de uma obra de enorme relevo teórico e etnográfico, onde a ideia de «bruxaria» ocupa lugar central ao se tratar de uma categoria vital no quadro da vivência comunitária Azande. Segundo Evans-Pritchard, a crença zande na bruxaria constitui um modelo explicativo para os infortúnios. Ao contrário do postulado pelos fundadores da Antropologia como Lewis Morgan, que viam nas religiões das sociedades não-ocidentais princípios grotescos e fantasiosos, Evans-Pritchard mostra como a bruxaria pertence, na verdade, a um sistema coerente e racial de pensamento e ação, que envolve oráculos, “magia”, “feitiçaria”, entre outros elementos, compondo um modelo explicativo dos acontecimentos objetivos e dos acasos. Cada elemento do sistema (em cadeia) explica e valida o outro. Mesmo nos casos em que ocorrem fracos rituais ou de adivinhação, os mesmos são explicados a partir de um quadro de referências místicas autóctones e idiomáticas.

De um modo geral, os Azande concebem a «bruxaria» como uma condição biológica hereditária que é ativada por estados psíquicos muitas vezes involuntários (impulsos), como sejam a inveja, o ódio, a cobiça, o ciúme, os quais desencadeiam uma série de infortúnios na pessoa visada. Uma vez que tais infortúnios vão das situações mais simples até ao falecimento, o recurso ao oráculo é prática quotidiana, sendo que os vários tipos de oráculo disponível revelam a identidade do bruxo, bem como sanam dúvidas sobre os mais variados assuntos, que de outra forma seriam possíveis de avaliar. Em oposição à «bruxaria» encontra-se a «magia», a qual é um recurso no combate aos males causados pela outra, curando doenças, controlando positivamente a agricultura e a caça (fontes de sustento), bem como atuando como forma de vingança contra os bruxos e feiticeiros identificados nos oráculos. Enquanto a «bruxaria» entre o Azande é involuntária, resultando de impulsos naturais e inconscientes, a «magia» é um ato consciente, uma manipulação dos elementos por via de drogas específicas para cada finalidade e da realização de «encantamentos». Ocorre, ainda, uma outra distinção no plano ritual: a “boa magia”, i.e., aquela socialmente aceite, opõe-se à «feitiçaria», que seria maligna, anti-social e imoral,  pois tem uma intenção deliberada de prejudicar física e economicamente outrem.

Identificando uma lógica racional na «bruxaria» zande, Evans-Pritchard dá um enorme impulso aos estudos do raciocínio nas sociedades chamadas, então, de «primitivas», adiantando-se ao seu antecessor Lucien Lévy-Brühl. A obra traz novos dados e contributos a várias ciências sociais, ao mostrar a dimensão sociológica – conflitos e relações de poder – produzida pelas acusações de «bruxaria» e «feitiçaria», bem como aos estudos da mudança social em contextos coloniais e pós-coloniais.

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