Para o entendimento da categoria «preconceito», a Antropologia precisa apoiar-se na Psicologia, haja visto que se trata, antes de mais, de uma disposição mental, a qual pode ou não traduzir-se em atitudes específicas. Segundo José Leon Crochik, em Preconceito, indivíduo e cultura, o preconceito tem uma dimensão plural, uma vez que pode assumir diferentes formas perante circunstâncias sociais e alvos díspares, uma vez que, segundo o autor, o preconceito estar mais relacionado ao sujeito que o pratica do que ao objeto (alvo) a que se destina. A irracionalidade dos atos preconceituosos encontra a sua raíz no meio social do sujeito-preconceituoso, i.e., no quadro da “família, escola, meios de comunicação de massa”, entre outros (Crochik 1997: 16). Nesse sentido, para Crochik existem duas esferas de preconceito: a primeira enquanto resultado de atos irrefletidos, i.e., a tal irracionalidade dos comportamentos e, segundo, como resultado de um “perigo real ou imaginário” (p.14).

Ainda no quadro da psicologia, mas agora no âmbito coletivo, i.e., da Psicologia Social, Gordon Allport, em The nature of prejudice, define preconceito como uma atitude hostil ou preventiva face a uma pessoa a partir da ideia da sua pertença a uma outro grupo, supondo-lhe a existência de características contestáveis que são atribuídas a esse mesmo grupo. Allport considera a atitude preconceituosa um comportamento induzido por grupos de indivíduos por via da verbalização negativa, da discriminação, evitamento, ataque físico e, em casos ainda mais extremos, a exterminação. Este dispositivo mental de formação de grupos facilita a interiorização de preconceitos, uma vez que se baseia na formulação imediata de generalizações, as quais, acompanhadas de fatores emocionais, criam uma convicção acerca de um grupo.

Uma vez que é a socialização que determina, em larga medida, os padrões dos sujeitos, é a partir do seu lugar de fala que o sujeito assimila o preconceito. Nos termos de Crochik, o preconceito depende dos princípios “ideológicos, económicos, psíquicos, religiosos, etc.” (1997: 17) nos quais os sujeitos são socializados. A socialização padroniza os elementos, formando uma coesão que opera como escudo protetor, a partir daquilo que se designa por «memória coletiva». Para que a coesão do grupo se mantenha é necessário que o processo de alteridade seja criado tendo por base o preconceito, gerando, desse modo, um sentimento de superioridade. Este darwinismo social esconde, segundo o autor, um medo de perda de condição própria, i.e., o preconceito face ao «outro» permite marginaliza-lo, impedindo a inversão da posição social, de dominador a dominado. A sensação de vulnerabilidade constante alimenta, ainda mais, o preconceito.

 

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