Blog

Como Funciona o fascismo: a política do “nós” e “eles”

Jason Stanley, Como Funciona o fascismo: a política do “nós” e “eles” [versão ebook], Porto Alegre: L&PM, 2018.

O texto realiza uma recensão do livro de Jason Stanley, Como Funciona o Fascismo [How Fascism Works], enfatizando as principais discussões.

Jason Stanley oferece-nos uma proposta teórica interessante no estudo do fascismo, apresentando-o não como uma doutrina e ideologia políticas ao caso concreto, mas antes na condição de modus operandi, i.e., como forma de fazer política. Ao radicar o fascismo num conjunto de princípios ligados à «nação» e ao patriarcado, embora Stanley faça uso de uma metodologia comparativa entre o presente – com enfoque para a ascensão do trumpismo – e o regime fascista de Mussolini e nazista de Hitler, a verdade é que à maioria de razão podemos aplicar o seu dispositivo teórico ao processo de emergência dos Estados ocidentais na sua fabricação de pertença interna e alteridade face aos vizinhos. É verdade que a narrativa «nós» versus «eles» se tornou num recurso maioritariamente interno, uma vez que é na divisão social que as políticas fascistas apostam, contrapondo-se, desse modo, ao contratualismo. Não obstante, o «eles» corresponde a uma massa abstrata de sujeitos composta por imigrantes (1), elites corruptas e esquerdistas defensores de minorias.

Nesse campo, o fascismo como descrito por Stanley é análogo ao populismo de que nos falam Steven Levitsky e Daniel Ziblatt em Como Morrem as Democracias [How democracies die], enquanto táticas de atuação política que procuram realizar uma divisão social, criando um sentimento de desconfiança mútua entre grupos sociais, em que o «nós», ou seja, os nacionalistas “de bem”, se congregam à volta do político demagogo, ou no dizer de Stanley, fascista.

Logo no começo da obra, Stanley invoca o movimento America First das décadas de 1920 e 1930 para explicitar a plataforma de eleição de Donald Trump, exatamente com o mesmo lema e com um discurso semelhante em relação à imigração. O próprio horizonte de Trump para fazer da América grande outra vez [Make America Great Again] era a década de 1930, precisamente o período de maiores políticas de pendor fascista (pg. 7). Na mesma página, o autor clarifica o conteúdo material da sua definição de fascismo: «(…)qualquer tipo de ultranacionalismo (étnico, religioso, cultural), no qual a nação é representada na figura de um líder autoritário que fala em seu nome. Como Donald Trump declarou em seu discurso na Convenção Nacional Republicana em julho de 2016, “eu sou sua voz”», adiantando que a «política fascista inclui muitas estratégias diferentes: o passado mítico, propaganda,­ anti-intelectualismo, irrealidade, hierarquia, vitimização, lei e ordem, ansiedade sexual, apelos à noção de pátria e desarticulação da união e do bem-estar público».

Esta definição de Stanley pode não ser consensual, mas é perfeitamente operatória e permite-se como recurso doutrinário para a análise de várias sociedades ocidentais hodiernas, a que o próprio autor alude, como a Hungria e a Polónia, mas não exclusivamente. Stanley mais adianta, subsequentemente que os «perigos da política fascista vêm da maneira específica como ela desumaniza segmentos da população. Ao excluir esses grupos, limita a capacidade de empatia entre outros cidadãos, levando à justificação do tratamento desumano, da repressão da liberdade, da prisão em massa e da expulsão, até, em casos extremos, o extermínio generalizado”» (p.8). Se nos ativermos às duas citações anteriores, de forma muito restritiva, apenas aplicaríamos o quadro teórico de Stanley ao fascismo clássico, i.e., às experiências autoritárias do séc. XX. Mas não é essa a sua intenção e a moldura teórica permite uma leitura mais ampla, dando conta de fenómenos atuais. É por tal razão que ele encontra em Donald Trump um exemplo acabado de políticas e estratégias de natureza fascista. Esta coragem teórica permite-nos posicionar determinados fenómenos hodiernos além do populismo, uma vez que o populista é uma forma de fazer política que visa uma psicologia de massas que pode – e muitas vezes é – ser transversal às diversas correntes políticas e estar presente em políticos comprometidos com a democracia, mas ansiosos com ganhos eleitorais. A política fascista tem outra natureza. Como refere Stanley, a marca mais distintiva da política fascista, ou o “sintoma”, como ele classifica, é a divisão entre o “nós” e “eles”, feita de uma forma concreta – uma vez que a política comunista, v.g., aplica a mesma distinção em matéria de classes –, baseando-se em distinção étnica, racial ou religiosa, trabalhando em torno dessa dicotomia. Para tal efeito, é desfeita a história, criando ou apelando a um imaginário de passado mítico que sustenta a sua visão do presente, operando por meio da propaganda, teorias da conspiração e notícias falsas, tanto de veiculação de um ideal nacionalista glorificador do passado, quanto de militância anti-intelectual, atacando as universidades a fim de descredibilizar o saber científico que coloca em causa a sua narrativa.

A tudo isto, acresce Stanley, como elemento caracterizador da política fascista a ansiedade sexual gerar pela igualdade de género que questiona a hierarquia patriarcal da “nação” idealizada pela política fascista. Como refere, numa «sociedade fascista, o líder da nação é análogo ao pai da família patriarcal tradicional. […] A autoridade do pai patriarcal deriva da sua força, e a força é o principal valor autoritário» (p.14). A família patriarcal torna-se, portanto, o arquétipo da nação. No entanto, na política fascista, segundo Stanley, o modelo patriarcal não é apenas uma referência, assume o papel de exclusivo, sendo, portanto, abertamente antiliberal, dando como exemplo a Hungria de Viktor Orbán – uma nação imaginada em torno do cristianismo de Santo Estêvão, e que só nessa trilha religiosa poderá ser uma grande nação novamente (p. 18). Este modelo está vertido na Lei Fundamental, que defende a instituição casamento como base da relação familiar, sendo o casamento contraído entre homem e mulher (art.º L/1).

O imaginário da nação revela-se determinante na constituição da política fascista, uma vez que é a necessidade de ser uma grande nação novamente implica um sentimento de perda gerada pelo liberalismo, em especial o liberalismo de costumes e o multiculturalismo. Para tal, o passado precisa ser glorioso. Como refere Stanley, o parlamento polaco aprovou em 2018 uma lei que condena a insinuação de responsabilidade da Polónia durante a ocupação nazi, independentemente de os factos contradizerem tal narrativa, como os bem documentados pogroms (2). Na mesma linha, o partido de extrema-direita alemão (AfD) reivindica o direito do povo alemão se orgulhar dos feitos das suas tropas nas duas guerras mundiais. Assim, «Quando não inventa simplesmente um passado para utilizar como arma a emoção da nostalgia, a política fascista procede a uma escolha seletiva do passado, evitando qualquer coisa que diminua a adulação irrefletida da glória da nação» (p. 24).

Chegamos, portanto, ao ponto da propaganda. Como refere Stanley, esta «usa a linguagem dos ideais virtuosos para unir pessoas por trás de objetivos que, de outra forma, seriam questionáveis» (p. 28), dando como exemplos a pauta racista da administração Nixon camuflada pela prorrogativa da “lei e ordem”, e a prática de divulgação de falsas acusações de corrupção enquanto se envolve em práticas corruptas, como parte da propaganda e atividade fascista. Por tal razão, Stanley defende que «Corrupção, para o político fascista, consiste na corrupção da pureza, e não da lei» (p. 29).

Para que a propaganda seja eficaz ela precisa de um homem forte (patriarca), o qual saberá explorar os medos e preconceitos disseminados virando-os contra a democracia. É o caso dos discursos pró-liberdade de expressão em favor de Donald Trump que ocorreram em 2017.

Para que produza efeitos, a política fascista precisa de uma divisão social. A tensão “nós” vs“eles” é expressa, portanto, como identificadora da nação e essencial na legitimação do “nós” enquanto povo virtuoso (“the people” referido por diversos autores). Nesse sentido, é muito interessante notar o fenómeno de enraizamento rural da política fascista, enquanto locus de valores puros e tradições da nação preservadas apesar da ameaça cosmopolita das grandes cidades cheias de imigrantes, minorias e liberais. Como refere Stanley «“Nós” somos trabalhadores e conquistamos nosso primeiro lugar com luta e mérito. “Eles” são preguiçosos, sobrevivem dos bens que produzimos, explorando a generosidade de nossos sistemas de bem-estar social ou empregando instituições corruptas, como sindicatos, para separar os cidadãos honestos e trabalhadores de seus salários. “Nós” somos produtores; “eles” são parasitas» (p.10). Na verdade, como o autor vai referindo ao longo da obra, esta noção tem pouco a ver com a realidade, quando sabemos que é na cidade que se produz a maioria da riqueza que é distribuída pelos países através da aplicação dos programas orçamentados e demais políticas. Como Stanley refere, em concordância com uma doutrina alargada, a parasitagem corresponde a uma visão racializada das minorias que se reproduz de modo a manter as populações vulneráveis numa condição permanente de subalternidade, de que as políticas de “lei e ordem” ao invés de resolverem qualquer problema de criminalidade vão agudizando a justaposição entre crime e raça ao promoverem um encarceramento generalizado e agressivo de populações específicas.

Ora, a narrativa fascista só é possível de veicular através de (1) uma concordância com preconceitos, (2) de um apelo nostálgico nacionalista, (3) combatendo as universidades, i.e., sendo anti-intelectualismo. Este último aspeto é determinante. Um debate sério e coerente precisa levar em consideração diferentes perspetivas dos eventos e fenómenos, o que somente se atinge por via da educação, pois é ela que oferece uma linguagem rica o suficiente para descrever a realidade de forma precisa e coerente. Ora, na política fascista «há apenas um ponto de vista legítimo: o da nação dominante. As escolas apresentam aos alunos a cultura dominante e seu passado mítico.» (p. 37). Dada a importância da escola e da universidade como espaços de produção de uma visão complexa, alargada e crítica da realidade, a política fascista incide sobre estas. Por essa razão é tão importante denunciá-las como fontes de “doutrinação marxista”, um conceito que visa difamar a igualdade (p. 42).

Como Stanley conclui, a política fascista normaliza preconceitos, ataques à igualdade, racismo, e divisões sociais. Nas suas palavras, a normalização «significa precisamente que a invasão de condições ideologicamente extremas não é reconhecida como tal porque elas parecem normais. A acusação de fascismo sempre parecerá extrema; “normalização” significa que as regras do jogo para o uso legítimo de terminologia “extrema” estão sempre mudando». (p. 153).

 

(1) na verdade, embora Stanley não o refira, observando os discursos populistas, que ele classifica como fascistas, a categoria «imigrante» é diferente de «estrangeiro», o que revela uma questão de classe e origem étnica, nacional e racial.

(2)A séria televisiva Lodo (Rojst) da Netflix retrata este apagamento.

 

Citação recomendada: João Ferreira Dias, "Como Funciona o fascismo: a política do “nós” e “eles”," in The State of Theory / O Estado da Teoria, acedido a Agosto 18, disponível em https://joaoferreiradias.net/blog/5752/.
error: Content is protected !!