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Populismo: Lá fora e cá dentro

José Pedro Zúquete (2022), Populismo: Lá fora e cá dentro, Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Neste livro, José Pedro Zúquete realiza um périplo pelo conceito e exemplos de populismo, partindo de um quadro internacional para se focar no estudo de caso português, mostrando como o populismo está entre nós há bastante tempo, desde o começo da República. Um verdadeiro manual sobre o tema, um livro obrigatório para compreender o fenómeno político do populismo.

José Pedro Zúquete tem se destacado pelos seus estudos sobre o populismo. Não é pois surpreendente que tenha sido escolhido para redigir este livro para a Fundação Francisco Manuel dos Santos, cuja natureza é muito mais de manual do que mera sistematização, bem patente na diferença de volume face às demais publicações da fundação. A obra marca, desde logo, em linha com a vasta literatura sobre o assunto, por nos apresentar o populismo como uma forma de fazer política transversal a todos os quadrantes políticos e partidários, vindo a manifestar-se em Portugal desde o começo da República, donde se compreende que a interpretação estrita do populismo como uma inauguração do Chega na política portuguesa corresponde a uma precipitação derivante de uma conjuntura internacional derivada da emergência de Trump e consolidação de Le Pen. 

A obra oferece-nos um primeiro olhar internacional, dando nota das vagas populistas ao longo da história do Ocidente, com o American People Party (“POPS”) que no final do séc. XIX mobilizou milhões de pessoas nos EUA em torno de uma ideia de solidariedade de classe e combate aos excessos do capitalismo, com os casos sul-americanos, a partir de 1945, de Velasquismo no Equador, o Peronismo na Argentina e o Varguismo no Brasil, baseados na mobilização nacionalista das massas descamisadas, e com uma nova vaga na viragem para o século XXI com revolução bolivariana de Hugo Chávez, os regimes de Evo Morales na Bolívia e Correa no Equador, além dos casos de Jair Bolsonaro, Donald Trump e Narendra Modi, de uma direita nacionalista étnica, racial e das “pessoas de bem”.

É a partir deste casos que Zúquete irá mergulhar no contexto europeu, dando conta o que poderíamos chamar de DNA do populismo. Para o autor é Le Pen pai quem inaugura o populismo de direita na Europa, dando origem a uma vaga que se espalha pelo continente, sobretudo a partir de 1980. É nele que se encontram as máximas de “devolver a palavra ao povo” e “dizer alto aquilo que as pessoas pensam em silêncio”, bem como os temas centrais da democracia capturada pelos interesses da elite político-mediática, da necessidade uma democracia direta na forma de referendos e outros instrumentos similares, a ameaça da imigração massiva à sobrevivência dos povos europeus, e no cenário da globalização a oposição entre o povo patriota e nacionalista e os globalistas antipatriotas. No entanto, como o autor alerta, embora classificada como uma grande família política de direita populista radical, a verdade é que existe uma grande diferença entre todos os partidos populistas de direita europeus. 

Desse modo, Zúquete resume o populismo, buscando o consenso na literatura, apresentando-o, assim, através da dicotomia entre povo e elites. Este é o âmago do populismo, explicitando porque ele é visível em diferentes quadrantes políticos. Ao mesmo tempo, apresenta três interpretações do populismo (p. 24ss): (i) ideologia, plástica, maleável, adaptável a diferentes contextos, na qual a sociedade é dividida verticalmente entre grupos opostos e moralmente diferentes, o povo puro e as elites corruptas. Esta perspetiva implica que o populismo não exista por si só, mas antes que se acoplar a outras ideologias, que lhe darão corpo e forma, seja o nacionalismo, seja o socialismo, o liberalismo ou o conservadorismo; (ii) estratégia, implicando que o populismo é um instrumento mobilizado contra o status quo, para conquistar ou cimentar o poder; (iii) discurso e representação, que para Zúquete é a forma mais próxima da realidade que vivemos, isto porque ao afirmar-se como um discurso que opõe povo e elites, fá-lo por meio de uma linguagem verbal, não-verbal e simbólica que inclui uma dose importante de representação por parte do líder populista. Como o autor refere, o populismo apresenta-se como uma lógica dinâmica de oposição e construção que agrega as queixas dos grupos “de baixo” e os transforma em “o povo” contra aqueles “de cima”, numa divisão maniqueísta entre os excluídos e detentores do poder. Esse povo obtém existência através do populismo, que veicula e cria a polarização. 

A questão da representação do povo mobiliza e legitima a “fala” do populista, embora essa representação seja uma construção e uma oportunidade que se traduz num modus operandi de ocasião, bem explicitado por Zúquete a partir dos casos de Mélenchon e Orbán (p. 32-34), políticos que saíram do centro mainstream e derivaram um para a extrema-esquerda e o outro para a extrema-direita, no entanto ambos dando voz ao povo descontente, embora com visões antagónicas sobre os rumos do mundo.

A relação do populismo com a democracia é, pois, o âmago da observação de tal fenómeno político-social. O populismo radica no povo a soberania absoluta, mas fá-lo contra as instituições democráticas vistas como decadentes e impregnadas de corrupção. Os populistas propõe-se, portanto, a desmantelar a lógica de chão-comum, consenso e contratualismo inerentes à democracia. Eles vêm para resgatar a política da burocracia e dos burocratas que exploram e roubam o povo, prometendo um novo sistema e governo concentrado no líder e pebliscitário. É neste contexto que emerge a ideia de “democracia iliberal” (p. 53), uma tipologia de regime político que resgata a política das oligarquias. De certo modo, trata-se de um combate à “democracia dos direitos” que produz uma “sacralização do indivíduo e o rebaixamento da comunidade e da vontade da maioria, constituindo mais uma demonstração da usurpação da soberania do povo levada a cabo por um liberalismo antidemocrático” (p. 55). Desse modo, a mobilização populista de esquerda e direita assenta máxime na denúncia dos défices democráticos. 

O populismo tem, naturalmente, o seu counterpart, o antipopulismo. Enquanto o populismo declara guerra ao sistema, o antipopulismo declara guerra ao populismo. Para o autor, os comentadores e analistas liberais, de esquerda e direita, dão maior ênfase e tratam com maior agressividade o populismo de direita do que de esquerda. Nesse contexto, o populismo de esquerda é tratado como irresponsável, ao passo que o de direita é visto como repugnante, sendo alvo de uma rejeição moral, dado este rejeitar o consenso dos direitos humanos em nome da exclusão, descriminação e da preferência etnocultural dos povos (p. 62). Como o autor advoga, a dimensão moral do combate é o âmago da distinção, colocando-se num patamar de bem contra o mal. 

A propósito do poder, Zúquete afirma que este é o santo graal dos populistas (p. 67). Isto é explicitado pela visão destes como uma versão do séc. XXI dos autoritarismos, interpretação para a qual o autor reserva cautela, afirmando que a hipótese de que estes pretendem tomar o poder contra as instituições liberais depende da robusteza das mesmas. Desse modo, considera essa hipótese bastante viável nos casos húngaro e polaco, onde a derrapagem autoritária serve de contraponto e se fundamenta num outro tipo de autoritarismo a que se pretende opor, o da União Europeia.  Diferentemente, dá como exemplo o da Eslováquia, onde o partido Smer, populista de esquerda, não erodiu a democracia, a Suíça, com o partido de maior sucesso da direita radical, a Áustria com Haider, a Itália com a Liga Norte, a Dinamarca, os Países Baixos e a Finlândia (p. 67ss). Este cenário prova que a ameaça populista às instituição não é toda igual, dependendo da solidez da democracia e, desse modo, podemos dizer, dos freios e contrapesos que a democracia eficaz impõe. 

Interessa agora olhar a segunda parte da obra, sobre o populismo em Portugal, que podemos afirmar que jamais se independentizou de uma dimensão messiânica e sebastianista. Releva, em primeiro lugar, a categoria “populismo militar” (p. 103 ss), onde a figura de Sidónio Pais se torna paradigmática e inaugural. Como refere Zúquete, o partido de Sidónio, o Partido Nacional Republicano (PNR) foi fundando numa lógica de unificação nacional contra o partidarismo da “república velha”, agregando “gentes de direita e de esquerda”, das mais altas classes às mais profundas da população, todos reunidos no sentido de salvar e fundar uma nova pátria. Interclassista, o movimento centrava-se na “gente de bem”, tendo sido de enorme inovação. As andanças pelo país, a proximidade a todos, a liderança por aclamação, integravam uma representação do poder que haveria de fazer escola. Ao tornar-se presidente passou a apresentar-se sempre vestido de uniforme militar, altivo e sóbrio, e muitas vezes a cavalo e de espada à cintura, ao mesmo tempo escalando uma linguagem populista de quem fala simples falando ao povo a verdade. 

A segunda figura destacada por Zúquete é a de Humberto Delgado (p. 107 ss), amplamente estudado por David L. Raby, para quem Delgado era um exemplo completo de populista do tipo “caudilho”, em resultado da tradição sidonista, da inexistência de partidos de massas estruturados e do êxodo rural. Ao apresentar a sua candidatura, Humberto Delgado afirmou-se como um candidato suprapartidário, como um homem militar independente, como candidato de todos os homens de boa vontade. A retórica delgadista concentrou-se na superioridade moral face a Salazar e ao Estado Novo decadente e concentrado numa minoria que domina a vida pública e recebia as benesses do poder, dando ele voz à maioria de escravos humilhados, explorados e perseguidos. O modelo populista de divisão das sociedades estava bem patente. 

Ainda na categoria militar, surge António Spínola, o primeiro presidente da república, de maio a setembro de 1974, mais um caudilho populista, afirmando-se como contrapeso aos excessos revolucionários de esquerda, antimonopolistas, antilatifundiários, anticolonialistas. Ao moderar a revolução pretendia personalizar o poder, que implicaria um projeto de democracia musculada de lei e ordem e federal como solução da questão colonial, através de uma vasta comunidade lusíada. Otelo Saraiva de Carvalho é a terceira figura referida por Zúquete. Otelo integrava a via do socialismo populista para quem a democracia representativa era percebida como elitista e burguesa, pelo que se debatia por uma democracia direta de base popular, das fábricas aos bairros. A sua candidatura, em 1976, foi para Raby a expressão maior do populismo radical do seu tempo. Otelo retoma a narrativa dos oprimidos contra os opressores, representados na candidatura de Ramalho Eanes, com o apoio dos partidos que formariam o arco da governação nos anos seguintes. Esses inimigos do povo (p. 125) tinham dupla face, uma interna, representada nos donos das fábricas, senhoras da terra e demais capitalistas exploradores do trabalho do povo, e uma externa, a dos imperialistas estrangeiros e seus aliados em Portugal. Assim, a sua candidatura era a da independência nacional, de um Portugal onde quem manda são os portugueses. 

Posteriormente Zúquete apresenta-nos a categoria de populismo regenerador. Este é, a meu ver, o mais relevante, porque detém as figuras que moldaram os horizontes da nossa democracia e marcaram os compassos das agendas e das gramáticas políticas nacionais. A primeira figura deste capítulo é Sá Carneiro (p. 127-136) , alguém cujas ideias e, sobretudo, cuja morte, determinará os impulsos da direita portuguesa. Para Zúquete o populismo de Sá Carneiro tem duas dimensões, uma interna, a que chama de “populismo basista”, relacionado a um vínculo emocional e de liderança carismática face às bases do partido, em que a categoria “povo” se manifesta nas bases partidárias em oposição à elite que são os barões do partido. A segunda, externa, liga-se à situação do país, que para ele vivia uma semidemocracia dado o poder dos militares do Conselho da Revolução. Esta situação levaria ao abandono da presidência do PSD em 1977. Para ele, os notáveis do partido eram incapazes de realizar uma crítica ao sistema, devido à sua condição de elites. Seria ele a assumir uma dimensão positiva da ideia de populismo, interpretando-a como uma categoria acusatória que na verdade reflete a capacidade de interpretar e exprimir as vontades e ansiedades populares (p. 132), que lhe permitia combater a demagogia das elites afastadas da vida quotidiana dos cidadãos. É nesse contexto que ele dirá que a AD é o resultado de políticos que se puseram na pele dos cidadãos. 

Apesar de Zúquete apresentar os casos de Ramalho Eanes e o Partido Renovador Democrático, do Partido da Solidariedade Nacional de Manuel Sérgio e do CDS de Basílio Horta, gostaria de avançar para o CDS de Manuel Monteiro (p. 159ss). Manuel Monteiro integra um ciclo característico da direita portuguesa de repensar a crise da direita em Portugal. Manuel Monteiro marcaria a sua liderança do CDS, logo de início, pela ideia de fazer política com base na virtude – situação que levaria a uma reação desmedida de Pacheco Pereira -, ao lado do povo e contra as imoralidades das elites políticas. A moralização da política seria a tónica pública de Manuel Monteiro, que afirmaria, em 1995, ser tempo de apoiar políticos que querem trabalhar pelo país em vez daqueles que querem encher os bolsos à custa do povo. O CDS aparecia, então, à margem do Bloco Central para o regenerar. As questões de segurança estavam em voga nos anos de 1990 e o CDS fez forte uso da questão na campanha legislativa de 1995, como refere o autor, atacando o novo Código Penal por, no entender do CDS, proteger mais o criminoso do que a vítima, propondo o agravamento de penas e o fim da liberdade condicional em casos de homicídio e violência sexual. É, também, o momento da introdução da questão da subsídio-dependência, inaugurando a divisão da sociedade entre quem trabalha e quem vive à custa daqueles. Acrescentaria a divisão entre o Portugal dos salões de Bruxelas e o Portugal rural e de quem trabalha. A veia nacionalista do CDS monteirista estava bem patente no projeto de lei de consagração da disciplina de História como essencial para a passagem de ano escolar, a fim de veicular um nacionalismo patriótico. 

Como refere Zúquete, o CDS de Manuel Monteiro foi o partido alinhado na narrativa da defesa do povo (da terra e do mar) que sofre contra os poderosos, rejeitando a ideia do CDS como um partido de ricos. Essa ideologia estaria bem presente na introdução da designação CDS-PP, com destaque para a ideologia do PP (Partido Popular). Ao contrário da direita lepenista, o PP de Manuel Monteiro recusava a agenda anti-minorias, muito graças à herança democrata-cristã que o seu líder encarnava e ao facto de Portugal de 1990 não ser ainda palco de fluxos migratórios significativos. Além do mais, a sua visão universalista era sustentada no patriotismo dos Descobrimentos, donde preferia uma visão de relações externas centradas na lusofonia e bastante eurocética. A isto acrescia, ainda, a forte ligação à comunidade cigana, que durante anos apoiava e fazia guarda-de-honra do partido. 

 Como alerta o autor, esta veia populista não passou despercebida na época, vindo da bancada do PS a acusação de derrapagem populista de extrema-direita antissistemética do partido, cada vez mais em linha com a nova direita europeia, vendo Francisco Louçã neste CDS uma expressão xenófoba e de pendor fascista, ao ponto de Durão Barroso opor esse CDS de nacionalismo retrógrado ao PSD da direita civilizada. 

A experiência populista do CDS não permita com a saída de Manuel Monteiro da liderança do partido. A ascensão de Paulo Portas (p. 168ss) marca uma certa continuidade com essa linha do partido, apesar do recém-regressado Basílio Horta defender que Paulo Portas representava o corte com a linha de extrema-direita de Manuel Monteiro. No entanto, Paulo Portas manteve a narrativa do partido de fora do sistema e que oferecia ao povo português o “basta” (não é displicente notar as continuidades programáticas e linguísticas do Chega) contra a corrupção do PS e PSD, apresentando-se como único defensor do povo. As eleições autárquicas de 1999 ficariam definitivamente associadas à emergência do “Paulinho das Feiras”. É também com Paulo Portas que vemos entrar em cena o resgate da memória de Sá Carneiro fora do PSD, afirmando o CDS como mais sá-carneirista, bem como a ideia de que o CDS era a voz da maioria silenciosa, fazendo das suas aparições de campanha verdadeiros acontecimentos populistas ( ver p. 171). Mais tarde, em 2009, a maioria silenciosa do povo, dos reformados, dos espoliados do Ultramar, dos pobres, passaria a ser identificada com a classe média. É igualmente com Paulo Portas que vemos introduzir na política a representação religiosa. Benzendo-se antes de falar e invocando o culto mariano, Portas fez do CDS, compreende-se, o partido de Deus, Pátria e Família, embora não de modo declarado, patente na proposta de entoar o hino nacional nas escolas. Outra dimensão do CDS de Paulo Portas é a colocação ao lado das forças de segurança e da defesa de um Estado mais securitário. Zúquete salienta, ainda, a importante dimensão que a narrativa da divisão do país tinha no período de Paulo Portas, com o combate ao RSI, e o que podemos entender como uma agenda identitária de direita, com o direito à vida, contra a despenalização das drogas e em defesa do patriotismo saudável da defesas dos pobres contra os que não querem trabalhar. Nesse contexto de defesa do povo português, em especial das classes trabalhadoras, apareceu a defesa de políticas de imigração mais restritivas. Em 1993, num editorial d’O Independente Portas escreveria que a última coisa que convém ao português médio é um romeno, búlgaro, um cigano ou um negro a concorrerem no mercado e a pesarem ao Estado. Num discurso que percebemos igual ao de Le Pen, Portas defendia que o seu raciocínio não era racista, apenas óbvio de que prefere-se os irmãos aos amigos, os amigos aos conhecidos, os conhecidos aos forasteiros (p. 175). Estas ideias eram todavia partilhadas pelo PSD e PS, num consenso nacional mais ou menos evidente. 

No entanto, a matriz discursiva de Paulo Portas incidia sobre estas questões de modo permanente. 

Chegamos a um acontecimento que permite afirmar que a história se repete. Na sequência dos acontecimentos mediáticos precipitados de 2005, conhecidos como “arrastão”, que mais tarde se veio a saber serem infundados, Nuno Melo seria acusado no Parlamento, por Ana Drago, deputada do BE, de ser de “direita populista, xenófoba e preconceituosa”. Daniel Oliveira, na sequência das declarações de Nuno Melo, situaria o CDS de Paulo Portas fora da direita civilizada, menos boçal, mas mais perigosa que Le Pen, defendendo a necessidade de criar um cordão sanitário em torno do partido. 

É tempo de virar à esquerda. O ano de 1999 via nascer o Bloco de Esquerda (BE), afirmando a chegada da nova esquerda a Portugal (p. 180 ss). Tratava-se de uma esquerda que chegava para ser intransigente com a globalização capitalista, rompendo com um sistema global de desigualdades. O BE era a esquerda emancipatória que ajudaria os explorados a se libertarem das suas amarras. Sem novidade, o BE “apontou baterias” às elites económicas e políticas, cujo poder é descrito como um polvo. A partir da crise de 2008, das dívidas soberanas e do resgate da troika, o BE acelerou as suas dinâmicas antissistémicas, apostando numa narrativa de criação de uma grande esquerda unindo os dominados (pessoas comuns) contra os dominantes (ecossistema político-empresarial). Nas legislativas de 2009, nas quais o BE obteve expressivo resultado, a dinâmica de campanha centrou-se na identificação do partido e de uma grande esquerda com uma frente popular de descontentes, abrangente e interclassista, contra a elites dominantes. Uma frente que pretendia representar os trabalhadores, os jovens e os idosos, uma maioria desprezada que precisava da voz de uma esquerda forte e maioritária. Com a governação da PAF o discurso bloquista, liderado ainda por Louçã, apostaria na divisão do país nos dois portuguais: o dos “de baixo” e os “de cima”, numa narrativa análoga à do partido espanhol Podemos. 

Zúquete afirma este populismo bloquista não apenas como uma estratégia discursiva, mas igualmente como ferramenta de poder, através da deslegitimação dos donos de Portugal, das elites económicas e dos políticos a seu mando, através de uma retórica agressiva, que incluía palavras como “assalto” e “roubo”. Verificava-se, igualmente, uma lógica discursiva moralista, que tradicionalmente associaríamos à direita, e ao caso português visível no monteirismo do CDS, desta feita através da inclusão de uma ideia de “decência”. 

Assim, o BE tornou-se no exemplo mais paradigmático de populismo de esquerda em Portugal, na linha de Mélenchon, dividindo o país em duas fatias antagónicas, os “de cima”, a burguesia de um terço que dominava o país a mando de interesses privadas, e os “de baixo”, dois terços da população, explorada. 

Antes de apontar ao populismo local, cujo exemplo mais evidente é o de Alberto João Jardim, Zúquete apresenta dois outros episódios e figuras interessantes no âmbito do populismo português. O primeiro é o da candidatura de Fernando Nobre (p. 192 ss) à presidência da República, em 2011, uma candidatura apartidária em nome dos excluídos e da salvação de um país em queda abrupta, não apenas económica, mas moral e ética. Tratou-se, embora o autor não o enquadre nesses termos, de uma candidatura messiânica, através da ideia de ser “o único capaz de romper com o sistema que nos tem corroído e que pôs grande parte da população numa situação trágica” (p. 193).  O segundo caso é o de Marinho e Pinto (p. 196 ss), bastonário da Ordem dos Advogados, que apareceu frequentemente na televisão com um discurso de ruptura, que procurou dirigir-se aos abstencionistas e descrentes na democracia, visando uma regeneração de Portugal, apresentando o seu partido, O PDR, como alternativa ao modelo político-partidário vigente, visando um novo abril por via do voto. O seu estilo e retórica seria várias vezes associada ao de Le Pen. 

A análise não poderia terminar, obviamente, sem uma extensa referência ao Chega (p. 225ss), partido que representou, na perceção popular a verdadeira entrada do populismo em Portugal, embora, como visto até aqui, não corresponda à realidade. Vale a pena transcrever um trecho de Zúquete:

O chamamento do povo como instância superior, a invocação de uma ligação directa e especial com o sentimento e o juízo desse povo descrito como sendo composto por portugueses comuns, a denúncia das elites como responsáveis pela degradação do país, o desejo de moralização da classe política e dos partidos, a procura da multidão e das massas como fonte de legitimação, o produtivismo (os trabalhadores vs. os parasitas), a postura de pregação com vista à redenção do sistema e, finalmente, a inauguração de uma nova república como horizonte final da crítica ao sistema: o que há, nisto tudo, de verdadeiramente novo, de nunca antes visto, experimentado ou lido na política portuguesas contemporânea? (p. 225)

Esta provocação intelectual de Zúquete é at the point. Na verdade, nada disto é novo nem exclusivo da direita, mutatis mutandi. Com efeito, podemos afirmar que o Chega torna algumas das questões mais salientes e agressivas, como o caso da pena de morte, visando chocar a sociedade. No mais, como o autor refere, o Chega seria apenas a mais recente expressão do populismo regenerador que sempre esteve na política portuguesa. Na verdade, nem mesmo a invocação religiosa ou aos ciganos são novas, se nos lembrarmos do citado exemplo de Paulo Portas. No fundo, a diferença parece residir, primeiro no tempo, já que vivemos a era do trumpismo, lepenismo, bolsonarismo, entre outros, pelo que o discurso populista de direita se apresenta mais perigoso, e em segundo lugar no estilo, mais agressivo e brejeiro de Ventura e mais polido de Portas. 

André Ventura segue, portanto, a lógica da divisão da sociedade, em primeiro lugar entre povo e elites. Para ganhar terreno político, captar a atenção da abstenção, Ventura apostou num ataque agressivo aos partidos de poder, apresentando-se como a voz dos injustiçados, abandonados pelo sistema, para isso personificando o português comum. Abrindo um parêntesis, esta é uma outra característica que a literatura científica sobre populismo tende a fazer notar: o outsider populista apresenta-se como um entre os demais, mesmo que na maioria das vezes venha do sistema e/ou das elites, como é o caso de Ventura, que foi candidato pelo PSD à Câmara de Loures e comentador desportivo e de crime na televisão. Nessa ótica de ser mais um entre os demais, aceitou falar alto, sem meias palavras, sem filtro ou contenção, dizendo o que as pessoas pensam da forma como as pessoas o formulam. É, no fundo, poderíamos dizer, a voz do Zé Povinho. 

Como refere Zúquete, seria o uso das redes sociais a ditar grande parte do sucesso e da estratégia de Ventura, mesmo que isso lhe vá valendo algumas suspensões por parte das plataformas, que o líder do Chega pode usar como o sistema a tentar calá-lo. A moralização do sistema, não distante, portanto, do CDS de Manuel Monteiro e Paulo Portas (aliás, tendo captado eleitorado e militantes ao partido), integra uma das principais performances de Ventura, através de medidas como a redução de deputados, a introdução de multas para punir ausências parlamentares (curiosamente ele, que foi pontuando pela ausência em debates importantes e comprometedores) e o fim de subvenções políticas, procuram colocar o Chega fora do sistema parlamentar, mais uma vez nova lógica em tudo identifica à do CDS, o que ajuda a explicar o desaparecimento parlamentar deste. 

A insistência num discurso messiânico é também uma marca do modus operandi de Ventura, não diferindo, também aí, do período do portismo. Exemplo paradigmático é a invocação da inspiração Mariana, do chamamento e da vocação religiosa de mudar o país, o homem com uma missão divina, ao ponto de associar os militantes do partido a membros de uma confissão, a quem incumbia levar a boa nova do Chega aos abandonados. Uma vez mais, também ele, invoca a memória de Sá-Carneiro como referência inspiracional regeneradora da política portuguesa, com maior gradação, ao seu estilo, através da ideia de que seria uma reencarnação do antigo líder do PSD. Há todo um sebastianismo, portanto, em André Ventura. (*). Não é de estranhar que Ventura apelida o Chega de religião dos portugueses comuns e não de partido, uma vez que na sua retórica os partidos representam a podridão do sistema. 

Não inaugurando a questão da subsídio-dependência nem a referência à comunidade cigana, Ventura, contudo, torna esta uma questão central da sua retórica, reconhecendo a importância que esta tem em determinadas zonas do país e o lugar que ocupa no imaginário e quotidiano dos portugueses. Não é por acaso que Zúquete refere que esse facto faz com que Ventura seja menos intenso na política anti-imigração do que o CDS de Paulo Portas. Embora o autor não o refira, é eventualmente estratégico, dado que o Chega possui muitos militantes e eleitores entre os imigrantes brasileiros em Portugal. 

Zúquete termina a obra com uma reflexão sobre o futuro que merece a nossa atenção, ao enfatizar algo que poderá, também o creio, tornar-se o ponto nevrálgico da política nacional: a questão da identidade. Para Zúquete, essa questão poderá dar origem a um populismo mais identitário, embora pessoalmente considere que o Chega já tem essa faceta e que facilmente a poderá explorar. 

Como bem refere o autor, o eixo da identidade nacional é a portugalidade, que atravessou o Estado Novo e chegou até ao presente. Trata-se da narrativa sagrada do universalismo português,  distinguindo-nos dos outros. Com efeito, esta criteriosa referência lembra a menção à hiperidentidade, conceito de Eduardo Lourenço e à de auto-estima defendida por Jorge Vala. Zúquete chama-lhe, e bem, de religião civil que nos dá acalento espiritual (p. 241) que manifesta uma crença bíblica de povo eleito. Essa religião civil expressa-se na auto-identificação como povo universal favorável à ideia de multiculturalidade e multietnicidade, que se manifesta na ideologia da “maneira portuguesa de estar no mundo, humanista, tolerante, miscegenizadora e de ponte entre povos, culturas e raças.” (p. 241). Por isso, Zúquete bem afirma que essa portugalidade é o solo ideológico das nossas elites políticas e ideologia oficial do Estado português, promovida por partidos, media, escolas, por meio de símbolos e rituais que se tal forma se confundem com o senso comum. Para Zúquete, o lusotropicalismo de outrora, baseado na dominação, deu lugar à lusofonia, baseada na cooperação, permanecendo contudo uma auto-imagem de desígnio coletivo, um imaginário imperial, e uma ligação ao mito do país pequeno na Europa, mas grande no mundo. Todo este imaginário inculca-se na psicologia coletiva, veiculando-se em discursos oficiais ao longo de décadas e atravessando os mais diversos quadrantes políticos.

A contra-resposta ao identitarismo da portugalidade radica no movimento antirracista, que Zúquete afirma mais antagónico hoje do que na década de 1990, tomando em consideração os homicídios de Alcindo Monteiro e Bruno Candé. Do colorblindness chegou-se ao combate ao racismo estrutural. Isto significa, como bem salienta o autor, que os afrodescendentes deixaram de lado a intenção de igualdade, de aplicação de semelhança sem critério de cor, para passarem demandar por um tratamento como comunidade específica, exigindo um país descolonial e marcado pelo comunitarismo, i.e., pela divisão da sociedade em comunidades étnicas e culturais, o que difere, no seu entendimento, de uma sociedade que elogia a diversidade, e que vai na contramão da homogeneidade presente à narrativa oficial. Num país onde a população se identifica com a sua nacionalidade em taxas acima da média europeia, as políticas migratórias portuguesas e o modelo comunitarista poderão trazer questões identitárias de modo mais forte, abrindo espaço para um populismo mais fortemente identitário.

Esta obra de Zúquete revela-se, então, obrigatória, não apenas num quadro científico de estudos sobre o populismo, mas muito além, para todos. É uma reflexão e uma exposição sistemática que nos mostra os caminhos que o populismo corre ao longo da histórica de que Portugal não foi, jamais, um país imune ao mesmo, apesar da narrativa que corria na sociedade civil. Ancorado no imaginário comum ao Chega, o populismo sempre esteve entre nós, da direita à esquerda, sob várias formas, e em bom rigor, a diferença entre o Chega de Ventura o CDS de Manuel Monteiro e Paulo Portas está no grau de populismo e na sofisticação do discurso. 

 

(*) esta dimensão havia sido notada por mim no artigo “O Messias já chegou, e livrará “as pessoas de bem” dos corruptos : messianismo político e legitimação popular, os casos de Bolsonaro e André Ventura

 

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