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Porque deixei de falar com brancos sobre raça

EDDO-LODGE, Reni (2021). Porque deixei de falar com brancos sobre raça. Lisboa: Edições 70.

Neste livro, Reni Eddo-Lodge, jornalista, parte de um post no seu blogue para realizar uma reflexão e um levantamento histórico sobre a forma como o racismo estruturou a sociedade inglesa e a forma como persiste a racialização da sociedade britânica.

Reni Eddo-Lodge traz um importante levantamento histórico e um relato biográfico para um tema que é cada vez mais consensual nas academias ocidentais: a da existência de um racismo estrutural longue durée que condiciona, limita e atropela as possibilidades das pessoas de cor (termo da autora) desde o seu nascimento. Trata-se de um quadro racializado em que as pessoas não-brancas e em especial negras se encontram numa situação de marginalidade permanente, dificuldade de acesso a empregos, a remunerações iguais, e igual tratamento judicial. A associação entre tom de pele e crime encontra-se presente no imaginário dos agentes policiais desde a academia, onde o racismo negado é produtor de uma desconfiança e tratamento desigual. Acresce uma circunstância em que o tom de pele estabelece a posição na sociedade como nativo ou imigrante, independentemente do número de gerações que se contam no país. A memória coletiva britânica, como mostra Eddo-Lodge, é feita de amnésia sobre o colonialismo inglês, sobre a violência racial, sobre a escravatura e comércio de escravos, sobre os portos de escravos dentro da Grã-Bretanha, sobre o uso abusivo de povos colonizados como soldados sob promessas vãs de liberdade colonial. É, ao mesmo tempo, daltónica, porque ao invocar não ver raça evita o debate sobre o racismo, sobre a condição marginal e segredada das pessoas de cor, as suas dificuldades diárias, a necessidade de provar continuamente o seu valor. Como bem aponta a autora: por que motivo o mérito é uma condição exclusiva de homens brancos de meia-idade?

Eddo-Lodge desenrola com coerência um conjunto de acontecimentos e referências bibliográficas sobre a receção do antirracismo que nos mostra como a questão se pretende resolvida pela não-referência, uma vez que a luta antirracista é uma luta que visibiliza as pessoas negras. Ao mesmo tempo, bem alerta a autora que o debate sobre o racismo coloca as pessoas brancas numa posição desconfortável que tende a gerar rejeição, o que implica que as vítimas de racismo precisam ter cuidado para não ofender os sentimentos da comunidade dominante. Não é, pois, por acaso que Reni Eddo-Lodge fala e muito bem em etnicidade branca não reconhecida, pois ser branco é o normal universal. Essa etnicidade branca universalizada contém todo o manual do racismo. Não é por acaso que a autora em criança perguntou à mãe quando seria branca, uma vez que todas as personagens boas na televisão eram brancas e os negros eram criminosos.

Apesar da autora rejeitar, está presente, ainda que de modo marginal, a ideia de “culpa branca” com a qual não consigo simpatizar, uma vez que coloca sobre cada pessoa branca uma necessidade de autoflagelação em virtude uma circunstância racial que lhe é biologicamente alheia. O próprio conceito de privilégio branco, devidamente situado no tempo, contém problemas sérios na realidade atual, uma vez que é facilmente instrumentalizável pelos movimentos da nova direita populista. Mas esses aspetos, como por exemplo a necessidade de distinguir racismo estrutural de racismo sistémico, não cabem nesta resenha rápida, demandando por outras abordagens. Por fim, a obra comprova a minha teoria de que a luta antirracista é o gancho para todas as demais lutas ditas “identitárias”, facto particularmente interessante e que diz muito da universalização da linguagem intersecional.

Citação recomendada: João Ferreira Dias, "Porque deixei de falar com brancos sobre raça," in The State of Theory / O Estado da Teoria, acedido a Agosto 18, disponível em https://joaoferreiradias.net/blog/5781/.
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