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Os Identitários, segundo Zúquete

Zúquete, José Pedro (2018). The identitarians: The movement against globalism and Islam in Europe. University of Notre Dame Pess.

Neste texto é feita uma abordagem em forma de resenha à obra de Zúquete, um dos mais proeminentes autores sobre o populismo no Ocidente.

O sociólogo José Pedro Zúquete vem realizando um trabalho de grande relevo em matéria de populismo e questões identitárias máxime no Ocidente, onde se evidente uma disputa entre nativismo e globalismo. Na obra conjunta com Charles Lindholm, é traçado o panorama da oposição, da esquerda à direita, ao que chamam de «globalização capitalista», dando relevo à defesa das identidades locais. A crise de 2008 é, em rigor e doutrina comum, o grande marco histórico que acelera a dissolução do consenso mais ou menos alargado da mais-valia da globalização, trazendo ao de cima as vozes de protesto, ampliando-as e dando-lhes terreno para disseminação.

É esse quadro que subjaz à obra The Identitarians: the Movement against Globalism and Islam in Europe, obra de Zúquete de 2018, que aparece numa linha de continuidade de inúmeras publicações sobre a matéria em revistas científicas. A obra é para o autor uma crónica de uma rebelião, onde os rebeldes são ativistas e intelectuais da extrema direita que se mobilizam em torno da defesa da identidade dos povos europeus, contra os desejos de uma elite que utiliza a globalização para integração e homogeneização das sociedades, expansão dos mercados, da democracia, gerando assim um universalismo perverso à custa do apagamento das diferenças etnoculturais inerentes às diversas sociedades. Desse modo, tais identitários levantam-se, no seu entendimento, em defesa do direito de os povos europeus continuarem a existir enquanto biocultura. O discurso nacionalista e hostil a estrangeiros – sobretudo no garante da unidade cultural e identitária –, é partilhado por diversos movimentos de extrema direita, não sendo um exclusivo de determinado partido ou movimento.

Na condição de movimento, os identitários são um fenómeno recente, tendo por principal marco a fundação do Genération Identitaire, em 2012, em França, de onde se espalhou por grande parte da Europa, procurando influenciar o debate político europeu através do enfoque à identidade cultural e biológica europeia. É na compreensão do movimento identitário que Zúquete inscreve este trabalho. Nele Zúquete se debruça sobre a história intelectual dos identitários, onde se destaca o movimento francófono da Nouvelle Droite, originado nos anos de 1960, que visava atacar o paradigma hegemónico do capitalismo liberal ocidental através de um combate cultural (p. 7). Com particular destaque para Alain de Benoist, esta Nouvelle Droitecriticava a pretensão universalista da modernidade, entendendo-a como uma manifestação secular da tradição monoteísta judaico-cristã. O pensador, defendia que o marxismo e o liberalismo postulam valores supranacionais, pelo que diante da integração regional inerente à globalização, Benoist insurgia-se contra o efeito de apagamento das singularidades locais. O pensamento de Benoist acabou vertido na retórica da direita identitária, a qual emerge como movimento próprio com a cisão interna da Nouvelle Droite, em meados de 1980, em razão da crítica de Benoist à defesa da identidade biológica como fundamento da identidade europeia. Embora o movimento identitário não tenha uma data específica de fundação ou um núcleo fundador, a obra de Guillaume Faye, de 2001, chamada Pourquoi nous combattons. Manifeste de la Résistance européenne, é o que consensualmente marca a afirmação do movimento. Nele encontra-se o argumentário central do movimento: a urgência de defesa da identidade biológica e cultural europeia. Este pensamento de Faye não era, contudo, novo, estando presente nas ideias do seu compagnon de route Pierre Vial, criador da revista Terre et Peuple, um medievalista que advogava uma urgência de defesa da identidade europeia, como um combate pela sobrevivência. Apesar da tendência para associar os identitários à extrema-direita, Zúquete prefere uma aproximação prudente, salientando que Benoist recusava o uso da defesa da identidade europeia para fins xenófobos, razão pela qual se opunha ao argumento da identidade biológica europeia.

Como é reconhecido, a renovação da visibilidade da extrema-direita encontra-se na crise de bem-estar social da década de 1980, numa altura em que o desemprego aumenta em razão do processo de desindustrialização europeia, e ao mesmo tempo se verifica uma vaga migratória de populações muçulmanas oriundas do Médio Oriente e do norte de África. É nesse contexto migratório que Renaud Camus irá cunhar a expressão grand remplacement (grande substituição) como uma referência a um risco demográfico que afetaria a população nativa europeia. É desse modo que o Islão surge como inimigo, uma vez que no entendimento dos identitários o Islão detém uma vocação para o expansionismo que é inerentemente uma ameaça. Ameaça essa que as elites europeias de pendor globalista recusaram reconhecer, em virtude uma tendência autoflageladora europeia. A crença na grande substituição é uma marca essencial dos identitários. Prova disso são as palavras de Alexander Markovics, líder dos identitários austríacos, de que “Em 50 ou 100 anos, não haverá mais povos europeus originais como nós conhecemos” (Zúquete 2018: 152).

Ao apresentar os pensadores identitários nos seus próprios termos, Zúquete dá voz e espelha na sua conceção de sociedade ocidental, sem cair no erro de parecer oferecer terreno à legitimação daqueles.

Citação recomendada: João Ferreira Dias, "Os Identitários, segundo Zúquete," in The State of Theory / O Estado da Teoria, acedido a Agosto 18, disponível em https://joaoferreiradias.net/blog/5785/.

 

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