Da Ciência Pós-Moderna à Militância Científica

A ciência moderna, inspirada no Iluminismo, baseava-se na crença de que a razão humana é capaz de transcender os limites da subjetividade e alcançar a verdade absoluta. Essa crença baseava-se na ideia de que os métodos científicos rigorosos, como a observação, a experimentação e a inferência, são capazes de produzir conhecimento objetivo e universal.

O pós-modernismo, por outro lado, questiona essa crença. Para os pós-modernos, a subjetividade do sujeito-cientista é inescapável. Isso significa que todo o conhecimento científico é, inevitavelmente, influenciado pelos valores, crenças e interesses do pesquisador.

Essa constatação leva a uma mudança de paradigma. Se o conhecimento é subjetivo, então não há como separar a ciência da política. A ciência pós-moderna, portanto, assume uma postura militante, com o objetivo de transformar a realidade de acordo com os valores e interesses do cientista.

Com efeito, a ciência pós-moderna pode ser vista como uma resposta à crise da objetividade de meados do século XX, tendo por base fatores como (i) o reconhecimento de que a ciência é uma atividade humana, e que, como tal, está sujeita aos mesmos vieses e preconceitos que qualquer outra atividade, (ii) o desenvolvimento de novas formas de conhecimento, como as ciências sociais e as ciências cognitivas, que desafiam a ideia de que a ciência é uma forma de conhecimento superior, (iii) o uso da ciência para justificar agendas políticas e ideológicas, o que coloca em dúvida a sua neutralidade.

Vale reconhecer que a ciência pós-moderna oferece uma perspetiva diferente sobre a ciência, postulando a subjetividade do conhecimento científico, mas não a vendo como um problema. Pelo contrário, vê a subjetividade como uma oportunidade para tornar a ciência mais inclusiva, através da presença de perspetivas de grupos considerados marginalizados e oprimidos, e de outras ontologias mais tradicionais-espirituais, bem como uma ferramenta capaz de transformar estruturas de opressão social, sendo que a ciência deve ser usada para promover a justiça social e o bem-estar humano.

Por outro lado, esta postura metodológica conduz a um relativismo tendencialmente exacerbado, donde o conhecimento é inexistente e a ciência uma falácia, pelo que qualquer texto, particularmente de grupos tidos por oprimidos, deve ser tomado como ciência. Isto é um desafio ao método clássico de aquisição de conhecimento, colocando em causa a própria produção científica, dado que se tudo é ciência, consequentemente nada é ciência. Isto é, esvazia-se a noção consensual de conhecimento científico.

Ora, ao aliar o pós-modernismo ao ativismo/militância, o cientista passa a produzir um conhecimento engajado, que é pouco aberto à revisão e à crítica, uma vez que se configura como um programa político manifestado a coberto de cientificidade por via de universidades e publicações científicas. 

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