Para onde vais feito busto, António?

Talvez não tenham notado, por não ter uma feição belicista, mas vivemos um período revolucionário, que lembra o famoso “debate” entre Thomas Paine e Edmund Burke, o qual convoca a questão de se saber se a mudança social deve ser repentina e de corte total com o passado, ou gradual, respeitando de onde viemos e o que foi construído. Por razões teórico-ideológicas, o tempo que vivemos é o da vitória do corte abrupto, da rutura em direção ao ex-novo. Há um admirável mundo novo a construir, que não é o “amanhã cantante” da sociedade igualitarista, sem classes, nem diferenças, mas é, fazendo uso de uma expressão de Fernando Pessoa, “outra coisa ainda”, que é a sociedade expurgada da mácula do passado. A história é, portanto, espaço de revisão, reescrita, reajustamento, purga. No novo mundo a construir só cabem os puros, não de imaculado coração, mas aqueles que foram vítimas da história, e aqueles que se derem como cordeiro sacrifical, purificados pela expiação dos pecados dos quais não escapam sem atos de contrição.

Isto a propósito da lei que entrará em vigor no Rio de Janeiro que pretende expurgar a cidade de quaisquer elementos materiais que homenagem pessoas que tenham um passado direto ou indireto ligado à escravatura, de entre eles o busto do Padre António Vieira oferecida pela Câmara Municipal de Lisboa, em 2011, e que se encontra na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

A figura do Padre António Vieira é uma figura controversa, não cabendo aqui realizar uma dissecação sobre a mesma. Vale dizer que se trata de uma personagem histórica de grande relevo intelectual e que, como qualquer intelectual do seu tempo, cheia de contradições. Grande defensor das comunidades indígenas brasileiras, António Vieira era um jesuíta progressista, alguém que procurou equilibrar as instituições do seu tempo com mudanças sociais humanistas. Se não é mentira que António Vieira pregou aos escravos a submissão e aceitação da sua condição, em especial nos sermões aos “pretos da Ethyopia”, não é menos verdade que as suas ideias progressistas sobre a dignidade dos povos indígenas e dos escravos, quando se confrontou com a crueldade de tratamento, valeram-lhe a condenação e prisão pela Inquisição e a perseguição até ao fim da vida. Falamos, evidentemente, de um progressismo de época, que em nome da igualdade racial e da dignidade humana, fazia uso da conversão ao cristianismo como instrumento de luta social.

Isto significa, portanto, que o Padre António Vieira é uma das figuras mais polémicas da história portuguesa, podendo ser objeto de diferentes leituras, conforme a benevolência ou o radicalismo que se pretenda imprimir ao olhar sobre a sua vida.

Felizmente, e ao arrepio do tempo, a solução encontrada para tais elementos topográficos, i.e., a sua transferência para um ambiente museológico, acompanhadas da devida contextualização sobre as obras e as personagens homenageadas, é de uma enorme sensatez. A solução permite (i) preservar património, (ii) que este seja visitável e compreendido através de um enquadramento, e (iii) que no futuro possa ser objeto de recuperação, se assim a sociedade do amanhã o entender. E isto é de uma sensatez extraordinária em face da vigência de uma crença social, política e teórica de que descobrimos a verdade final, o último evangelho da teoria social, que mais não tem feito que contribuir para a polarização social e para fomentar um puritanismo de rede social.

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