O que é isso de descolonizar os manuais de História?

No âmbito das disputas pós-materiais, das disputas imateriais que versam nas sociedades ocidentais, existe um processo chamado de “descolonização da cultura e do conhecimento”. Ora, no caso português, ele é muito voltado aos manuais escolares, considerando que a memória histórica em Portugal detém ainda uma forte componente, uma forte carga, lusotropicalista, que enfatiza a narrativa do bom colonizador, do excecionalismo colonial português e que enfatiza, portanto, esse lado da expansão marítima como o grande feito nacional, prevalecendo uma narrativa que pesa negativamente sobre as populações que foram colonizadas e que foram objeto de ocupação. Ora, parece, evidentemente, uma reivindicação justa que, efetivamente, passaria por essa revisão da narrativa histórica, de modo a apresentar um discurso científico rigoroso que contextualize, que explique que houve efeitos negativos nos povos ocupados, nos povos colonizados, que efetivamente o escravo não pode continuar a ser apresentado nos manuais escolares de uma forma coisificada, ou seja, em que as pessoas cujos corpos foram escravizados, que foram comerciados para efeito de escravização, sejam tratados como parte de um vasto pacote de produtos comercializados como as especiarias. Efetivamente, é preciso humanizar essas pessoas que foram objeto de violência física, psicológica e simbólica, porque foram também expropriadas da sua cultura.

A noção de descolonização da cultura, pode, todavia, trazer um peso político-ideológico que tem afastado, em certa medida, partidos, movimentos, de pessoas mais do centro e centro-direita, as quais temem, naturalmente, que o próprio processo ou exercício de descolonização possa ser uma transformação dos manuais escolares de uma narrativa de epopeia muito própria do Estado Novo, mas que já vinha da Primeira República e também desde a Monarquia, portanto, um contínuo da narrativa heroica portuguesa, numa narrativa diametralmente oposta, de condenação sem contextualização.

Ora o que nós precisamos, de facto, é de uma contextualização crítica, de uma avaliação crítica dos manuais escolares, de uma abordagem crítica, rigorosa e científica, que seja capaz ao mesmo tempo de explicar os feitos científicos que estão associados à expansão marítima portuguesa e dar um contexto rigoroso nos efeitos negativos, da coisificação, da industrialização do processo de escravatura, da transformação de um processo de comércio de escravos que existia e que faz parte da história da humanidade e que era comum em África, numa produção industrial de escravos sem ímpar.

Portanto, precisamos de um olhar rigoroso, crítico e, talvez o próprio conceito de descolonização, devido ao peso ideológico que foi ganhando, possa não ser o termo mais adequado, demandando por uma terminologia talvez de um olhar crítico sobre os manuais, uma desconstrução crítica de narrativas heroicas de modo a apresentar os acontecimentos, os factos históricos, de uma forma rigorosa que efetivamente seja capaz de explicitar o vanguardismo do processo da ida para o mar e ao mesmo tempo que manifeste os efeitos negativos sentidos pelos povos ocupados, pela violência colonial, pelo desenraizamento cultural e identitário sofrido pelos povos africanos que foram escravizados.

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