Hipersensibilidade e Insensibilidade em competição


A contemporaneidade é caracterizada por uma notável hipersensibilidade no tecido social, fenómeno este amplamente influenciado por correntes de pensamento pós-modernistas que, adotando o princípio de “se sinto, logo é”, conferem primazia à subjetividade das experiências individuais. Nesse contexto, o conceito de microagressões transcendeu o âmbito meramente analítico para se estabelecer como um vetor de mobilização social, evidenciando a complexidade das dinâmicas de interação social e o potencial para o surgimento de tensões baseadas na percepção de ofensas, muitas vezes subtis ou não intencionais. Esta ênfase nas experiências subjetivas de ofensa e discriminação reflete uma mudança significativa no discurso público e nas práticas sociais, suscitando debates acerca dos limites da liberdade de expressão e do respeito à diversidade de perspectivas e identidades.

No entanto, esse aumento na sensibilidade às microagressões e às formas variadas de expressão da ofensa ocorre paradoxalmente num momento em que se observa um esvaziamento da sensibilidade e da empatia em outras esferas da experiência humana. Um exemplo emblemático dessa dicotomia é a prática de turismo em áreas marcadas por conflitos e desafios humanitários significativos, como a perigosa rota de migração do estreito de Darién, que liga a Colômbia ao Panamá. A procura por experiências “autênticas” ou “aventureiras” em contextos de extrema vulnerabilidade expõe um desligamento preocupante entre a sensibilidade exacerbada a certas formas de ofensa e a apatia diante do sofrimento e das adversidades enfrentadas por populações em situação de risco.

A coexistência de uma hipersensibilidade em relação às microagressões com uma aparente insensibilidade diante de dilemas humanitários críticos lança luz sobre as intrincadas contradições que permeiam as sociedades contemporâneas. A atenção minuciosa às microagressões tem o mérito de expor mecanismos subtis de marginalização e segregação, desafiando e deslegitimando comportamentos e atitudes que, até então, eram tacitamente aceitos ou ignorados no tecido social. Este processo de conscientização é crucial para o reconhecimento e a valorização das múltiplas identidades e experiências que compõem o mosaico social, contribuindo para a construção de espaços mais inclusivos e respeitosos.

Contudo, esta mesma vigilância às nuances da interação social pode degenerar numa forma de controlo social excessivamente zeloso, que se aproxima da censura moral e limita a diversidade de expressões e opiniões. Tal dinâmica acaba por reproduzir o padrão de exclusão que originalmente pretendia combater, criando um ambiente de constante auto-vigilância e de temor diante da possibilidade de transgressão das normas de correção política estabelecidas.

Poderemos estar diante de um confronto entre sensibilidades seletivas e mediaticamente construídas. Não será de desconsiderar que uma figura progressista da nossa sociedade, não há muito tempo teceu um comentário nas redes sociais sobre um taxista branco e português, dizendo que “cheirava a trabalhador português”, para desqualificar o mesmo, enquanto escrevia em defesa dos imigrantes exploradores em serviços com a Bolt e a Uber. Este “progressismo fashion”, que oscila ao sabor das pautas mediáticas e sociais mais palatáveis, ilustra um dos aspectos mais problemáticos do movimento woke quando universalizado, desprovido de uma reflexão crítica e aprofundada. Tal abordagem superficial ao ativismo corre o risco de minar a solidariedade genuína e a empatia, elementos essenciais para a superação coletiva de desafios sociais e para a promoção de uma verdadeira transformação social

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