E se o Museu de Benavente tivesse um espólio africano?

Sucede que o tem, numa quantidade suficiente para dela extrair uma exposição permanente.

Todo o museu local é, em primeiro lugar, uma salvaguarda etnográfica das práticas e tradições culturais do seu povo, cumprindo um papel simultaneamente de recolha, salvaguarda e de fruição, da qual resultam processos educativos essenciais, junto das suas populações escolares e públicos diversos, que permitem encapsular e contar a memória histórica local. Nesse sentido, um museu como o de Benavente — particularmente no contexto de remodelação — deverá cumprir papéis concordantes com a museologia e museografia do século XXI, deixando de ser um espaço de depósito de objetos e de produção cultural residual. Quem me conhece sabe que há anos que defendo uma reconfiguração conceptual do Museu Municipal de Benavente (MMB), no sentido de o levar ao encontro das suas possibilidades, ultrapassando uma visão fortemente ideológica de aconchego de património. Numa realidade sociológica em profundas transformações, Benavente, enquanto sede de Concelho, deve ter um museu que projete devidamente a sua cultura e ao mesmo tempo seja capaz de diversificar a sua oferta cultural e científica.

Benavente encaminha-se, a passos largos, para deixar de ser uma realidade monocultural, isto é, uma região marcada por uma cultura única, para se afirmar, cada vez mais, como um local de encontro de múltiplas culturas. É fundamental que o Museu responda a essas transformações, desde logo oferecendo de forma robusta uma exposição permanente e devidamente curada sobre o seu património local, sendo visita obrigatória para as populações escolares. Em segundo lugar, precisa ser um espaço plural, capaz de dar conta das transformações sociais e culturais, respondendo com projetos concordantes.

Ora, no âmbito do seu espólio o MMB é portador de uma coleção considerável de arte africana, que se encontra armazenada por falta de estudo. Isto é um facto inconcebível, particularmente sabendo que essa arte foi oferecida por populares que estiveram em África, como colonos ou como combatentes. O processo de inventário e catalogação permanece – até onde sei – por fazer. Nesse sentido, essa coleção é parte da memória histórica local e deveria ser tratada como tal. A arte africana é um tesouro cultural de valor inestimável, não apenas pelo seu intrínseco valor estético, mas também pela sua importância histórica e antropológica. A manutenção desta coleção fora do alcance do público e da academia não só priva os visitantes do museu de uma experiência enriquecedora, como também impede que investigadores aprofundem o seu conhecimento sobre as tradições, crenças e práticas das diversas culturas africanas representadas nas peças.

Além disso, a preservação adequada e a exposição da arte africana podem contribuir para uma maior valorização e reconhecimento da diversidade cultural africana, promovendo o respeito e a compreensão intercultural. As obras de arte africanas muitas vezes carregam significados profundos, simbolismos e histórias que merecem ser estudados e compreendidos em toda a sua complexidade. É imperativo que no quadro da reforma do MMB sejam tomadas medidas concretas para reverter esta situação.

Comments

Um comentário a “E se o Museu de Benavente tivesse um espólio africano?”

  1. Avatar de Silvestre Pedrosa
    Silvestre Pedrosa

    Não podia estar mais de acordo, só que o museu de Benavente, tal como todas as outras coisas que dependem da CMB, é tratado com os pés e planificado em cima do joelho. Veremos se nova administração a imergir das eleições do próximo ano vai ter visão diferente. Gostaria de ter esperança de que sim, mas, tenho duvidas.

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