Teoria


A teoria, concebida como uma ferramenta analítica e interpretativa, desempenha um papel fundamental na compreensão e na explanação dos fenómenos, atuando como um arcabouço que orienta a percepção e a análise da realidade, especialmente no âmbito das ciências sociais. Contudo, a construção teórica não é um processo isento de influências; ela está intrinsecamente vinculada às perspectivas, às ideologias e aos contextos socioculturais dos seus formuladores. Os cientistas sociais, embora sejam agentes treinados e capacitados na aplicação rigorosa de métodos analíticos, não estão imunes ao condicionamento imposto por suas formações e pelos paradigmas predominantes nas suas áreas de estudo.

Historicamente, as ciências sociais foram marcadas por um etnocentrismo ocidental que enfatizava uma visão de mundo centrada nos valores, nas tradições e nas perspectivas das sociedades ocidentais, muitas vezes em detrimento da diversidade e da riqueza das demais culturas. Esse viés foi reforçado por estruturas de poder e por narrativas dominantes, como o patriarcado judaico-cristão e concepções supremacistas culturais, que moldaram de maneira significativa os contornos teóricos e as abordagens metodológicas adotadas pelos pesquisadores.

Nesse cenário, a emergência da teoria crítica representou uma ruptura paradigmática, introduzindo uma perspectiva que questionava as premissas convencionais e procurava desvelar as estruturas de poder subjacentes às relações sociais, culturais e políticas. Ao adotar uma abordagem desconstruída e descolonial, a teoria crítica possibilitou a ampliação do campo de visão das ciências sociais, incentivando o reconhecimento e a valorização de vozes e experiências historicamente marginalizadas ou silenciadas.

Contudo, paradoxalmente, ao se consolidar como um cânone teórico, a teoria crítica enfrentou o risco de se tornar vítima do mesmo processo de dogmatização que inicialmente procurou combater. A institucionalização de certas narrativas críticas pode levar à cristalização de um conjunto de preceitos que, ao invés de fomentar o questionamento contínuo e a revisão conceptual, passam a delinear de forma rígida e essencialista os contornos da ação política e do debate académico.

Esta tendência à dogmatização representa um desafio significativo para as ciências sociais, uma vez que pode limitar a capacidade de adaptação e renovação teórica diante das transformações constantes da realidade social. Portanto, é imperativo que os cientistas sociais mantenham um compromisso com a reflexividade, a autocrítica e a abertura intelectual, de modo a preservar a vitalidade e a relevância da teoria crítica como instrumento de análise e como veículo para a promoção de uma compreensão mais profunda e abrangente dos fenómenos sociais.

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