O presente texto realiza uma sumária recensão do livro “White Rage” de Carol Anderson.

White Rage: The Unspoken Truth of Our Racial Divide é um importante livro para entender as relações raciais nos Estados Unidos. Refiro Estados Unidos, considerando o perigo da extrapolação teórica para fora das fronteiras do estudo-de-caso, ao embalo da colagem teórica com a realidade. O livro, assinado por Carol Anderson, aborda a persistente presença da raiva branca diante das políticas e lutas raciais nos EUA, enquanto resposta recorrente diante do avanço dos direitos civis e do crescimento da presença e ação política das populações negras no país. Anderson avalia diferentes momentos-chave que refletem a presença da raiva branca, como a Guerra Civil, a era da Reconstrução, o Movimento pelos Direitos Civis dos anos 1960 e a presidência de Barack Obama. Esses momentos-chave, que representam avanços de direitos das populações negras produziram reação adversa da população branca que se viu ameaçada nas suas estruturas de poder e privilégio. A “raiva branca”, de acordo com Carol Anderson, manifestou-se por meio de diversas estratégias ao longo da história, incluindo a supressão do voto negro, a segregação racial, a criminalização da pobreza, a retórica do “lei e ordem” e a desregulamentação económica. No entendimento da autora, essas estratégias foram instrumentos de entrave ao avanço dos direitos civis, de restrição ao acesso igualitário aos recursos e oportunidades e uma forma de manutenção das desigualdades estruturais. De modo a perpetuar a narrativa da sociedade pós-racial, a raiva branca tem sido escondida ou negada, enquanto se perpetua a diferenciação de tratamento e a precedência branca por parte das diversas estruturais sociais, económicas e políticas. Após a Guerra Civil deu-se uma reação violenta e opressiva face aos esforços para garantir direitos civis às populações negras, por meio das chamadas Leis Jim Crow, que institucionalizaram a segregação racial e negaram a igualdade de oportunidades. No período da Reconstrução, consequência da Guerra Civil, em que se procurou adotar medidas de inclusão das populações negras e garantia de direitos civis, a…

Recensão da obra Woke Racism de John McWhorter, linguista e professor universitário, que denuncia uma transformação do combate ao racismo numa religião persecutória.

O livro não é sobre a existência ou não de racismo. O autor é perentório, para que não restem dúvidas, de que o racismo existe, é um problema sério na sociedade norte-americana (estadunidense), que afeta a vida das pessoas negras e racializadas de modo evidente e brutal. Dito isto, o livro é sobre a ascensão de uma agenda ideológica woke antirracista que não permite que se faça humor ou critique uma pessoa não-branca sem se ser cancelado, sobre uma manifestação de natureza absolutista e, segundo o autor, religiosa, de ativismo que ao abrigo da ideia de “desmantelar estruturas” sociais racistas visa converter toda a população a uma leitura única do fenómeno racial americano baseada numa grelha rígida de “opressor vs oprimido”.  Em rigor, o livro não aparece em contramão, por exemplo, do livro de René Eddo-Lodge, mas foca-se nas pessoas brancas que Eddo-Lodge menciona que entre lágrimas lhe pediam para não desistir dos brancos. Não é por acaso que John McWhorter inicia o livro referindo o caso da cronista Alison Roman do New York Times que em 2020 foi suspensa por ter criticado uma colega, Chrissy Teigen, e a mentora de estilo de vida Marie Kondo. O Twitter entrou em ebulição porque uma mulher branca havia criticado duas pessoas não-brancas, abusando do seu «privilégio branco» para diminuir duas pessoas não-brancas. No mesmo ano, Neal-Boyle reitora do curso de enfermagem da Universidade de Massachusetts Lowell foi despedida por no rescaldo do assassinato de George Floyd por ter afirmado que as vidas negras importam (Black Lives Matter), mas igualmente todas as demais vidas importam, porque ninguém deveria viver com medo por causa da sua aparência ou do que acredita. O facto de ter iniciado o seu comunicado referindo a história trágica do racismo e enviesamento que continuam presentes nos EUA, o facto de ter referido um “(…) but also, Everyone’s life matters”, foi o suficiente para ter sido alvo de fúria em massas. Ainda em 2020,…

O presente texto realiza uma recensão da obra de Gabriel Mithá Ribeiro, controverso pensador da direita portuguesa, de forte dimensão colonialista, e que foi o grande ideólogo do Chega nas eleições legislativas de 2022.

Entender para onde vai o Chega, para além da espuma dos dias dos soundbites de André Ventura que mantêm o partido e o seu líder à tona, passa por conhecer o pensamento de Gabriel Mithá Ribeiro, atual ideólogo do partido*. Na badana da contracapa está escrito que este livro “é a sua dissertação pós-doutoral que, no entanto, não resistiria ao crivo de um júri académico”. Quem quer que tenha escrito esta tirada não poderia estar mais certo, uma vez que o trabalho é, sobretudo, uma escrita catártica do autor, um reencontro consigo e o seu pensamento, uma exaltação à Nova Direita, um programa ideológico sumarizado no primado da autorresponsabilização. Mas desengane-se quem tomar este livro por desnecessário. Pelo contrário, ele é essencial para conhecer o conteúdo material do pensamento político da Nova Direita portuguesa manifesta no Chega. Trata-se de uma leitura densa que se faz acompanhar de inúmeras notas à margem. A dedicatória a Donald Trump e Jair Bolsonaro informam-nos o essencial do pensamento de Gabriel Mithá Ribeiro (GMR) e porque o autor não poderia militar na direita clássica. Os atropelos à justiça, ao Estado de Direito, à dignidade humanas, o apego bolsonarista à ditadura militar, não constituem um problema (ou não parecem constituir dada a ausência de crítica) para GMR desde que estes estejam do seu lado da barricada. Todavia, a sua escrita não é um compêndio de lugares-comuns e preconceitos, mas antes apresenta relevante densidade discursiva, ainda que padeça do vício da radicalização e da polarização. O eixo do trabalho é a moral social da autorresponsabilização, a que GMR opõe o modelo soviético da vitimização, sobrepondo a capacidade de os povos encontrarem os seus rumos, por si mesmos, às consequências históricas do colonialismo. É na personalidade coletiva de cada povo que GMR encontra a predisposição para a pobreza e estagnação ou para a prosperidade perante a capacidade ou não de dar primazia à autorresponsabilização. Ao enfocar na autorresponsabilização, GMR coloca-a em…

EDDO-LODGE, Reni (2021). Porque deixei de falar com brancos sobre raça. Lisboa: Edições 70.

Neste livro, Reni Eddo-Lodge, jornalista, parte de um post no seu blogue para realizar uma reflexão e um levantamento histórico sobre a forma como o racismo estruturou a sociedade inglesa e a forma como persiste a racialização da sociedade britânica.

Reni Eddo-Lodge traz um importante levantamento histórico e um relato biográfico para um tema que é cada vez mais consensual nas academias ocidentais: a da existência de um racismo estrutural longue durée que condiciona, limita e atropela as possibilidades das pessoas de cor (termo da autora) desde o seu nascimento. Trata-se de um quadro racializado em que as pessoas não-brancas e em especial negras se encontram numa situação de marginalidade permanente, dificuldade de acesso a empregos, a remunerações iguais, e igual tratamento judicial. A associação entre tom de pele e crime encontra-se presente no imaginário dos agentes policiais desde a academia, onde o racismo negado é produtor de uma desconfiança e tratamento desigual. Acresce uma circunstância em que o tom de pele estabelece a posição na sociedade como nativo ou imigrante, independentemente do número de gerações que se contam no país. A memória coletiva britânica, como mostra Eddo-Lodge, é feita de amnésia sobre o colonialismo inglês, sobre a violência racial, sobre a escravatura e comércio de escravos, sobre os portos de escravos dentro da Grã-Bretanha, sobre o uso abusivo de povos colonizados como soldados sob promessas vãs de liberdade colonial. É, ao mesmo tempo, daltónica, porque ao invocar não ver raça evita o debate sobre o racismo, sobre a condição marginal e segredada das pessoas de cor, as suas dificuldades diárias, a necessidade de provar continuamente o seu valor. Como bem aponta a autora: por que motivo o mérito é uma condição exclusiva de homens brancos de meia-idade? Eddo-Lodge desenrola com coerência um conjunto de acontecimentos e referências bibliográficas sobre a receção do antirracismo que nos mostra como a questão se pretende resolvida pela não-referência, uma vez que a luta antirracista é uma luta que visibiliza as pessoas negras. Ao mesmo tempo, bem alerta a autora que o debate sobre o racismo coloca as pessoas brancas numa posição desconfortável que tende a gerar rejeição, o que implica que as vítimas…

ALMEIDA, Silvio Luiz de. Racismo Estrutural. São Paulo: Ed. Jandaíra – Coleção. Feminismo Plurais (Selo Sueli Carneiro).

Nesta obra, Sílvio Almeida apresenta uma longa e cuidadosa reflexão sobre a noção de racismo estrutural, nas suas variadas formas, no Brasil, a partir da Teoria Crítica da Raça, e oferecendo importantes aportes para a reflexão noutras geografias.

No âmbito da coletânea “Feminismos Plurais” de Djamila Ribeiro, surge esta publicação de Sílvio Almeida. A emergência dos estudos sobre raça, com vigor a partir da Teoria Crítica da Raça surgida nos anos de 1980 no âmbito dos Critical Legal Studies, na Universidade de Harvard, deram origem a uma produção sem par sobre o racismo. A disseminação dos estudos norte-americanos para a América latina, deu origem à construção de um consenso alargado sobre o que constitui o racismo, tornando-se uma teoria-militante que se globaliza rapidamente, aparecendo como dispositivo metodológico e teórico para interpretar a inserção de pessoas racializadas em todo o Ocidente. Esta obra integra esse quadro conceptual da Teoria Crítica da Raça, sem, contudo, deixar de oferecer importante contributo, sobretudo pela capacidade de sistematização.  Como refere Almeida, a história da raça liga-se à constituição política e económics das sociedades contemporâneas, através da expansão comercial burguesa e da cultura renascentista que produziu o homem universal a partir do homem europeu civilizado. As revoluções inglesas, americana e francesa, reorganizaram o mundo por via da transição de sociedades feudais para capitalistas. Esse modelo civilizacional da liberdade, da igualdade, do Estado de Direito e do mercado, seria, então, levado aos selvagens/primitivos do mundo. O colonialismo tornou-se, então, num projeto de civilização universal, que como Mbembe afirma, se tornou numa verdadeira experiência de brutalidade antiliberal. Sabemos que no quadro do humanitarismo jurídico do século XVIII em diante, surgiram inúmeros debates sobre a legalidade e a ética da exploração humana da escravatura e a violação da autodeterminação dos povos que constituia o colonialismo. Não obstante, o projeto universal liberal fracassou e teve na Revolução Haitiana o seu marco mais determinante.  Na justificação da exploração, emerge a tecnologia teórica europeia da classificação dos seres humanos, legitimando e justificando a exploração, submissão e destruição das populações colonizadas, “selvagens”, “irracionais”, “animais”, “sem história”, etc. Assim, nascem o determinismo biológico e o determinismo geográfico como fundamento “científico” de justificação…

Jorge Vala, Racismo, Hoje: Portugal em Contexto Europeu, Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2021

Neste livro, Jorge Vala, psicólogo social especializado em racismo, apresenta uma sistematização do tema essencial, apresentando as conclusões dos mais relevantes estudos sobre o assunto.

A dimensão estrutural do racismo é um dos temas mais marcantes nas nossas sociedades, ao invocar a memória histórica colonial e confrontando-a com o património ocidental de crença na inferioridade das populações negras. Esta obra de Jorge Vala é um contributo essencial para o conhecimento do tema, sumarizando as principais investigações sobre o assunto, na Europa e EUA, sem orientações ideológicas, posicionando o racismo no seu eixo mais determinante: a psicologia social. É através das pré-conceções e crenças inconscientes que se apreende a dimensão do racismo nas nossas sociedades. Jorge Vala revela dados inquietantes da ação do racismo como produto biológico e cultural fabricado no Ocidente e imerso na forma como a sociedade se organiza em face do outro – (i) na forma como a associação entre tom de pele e inferioridade intelectual no sucesso escolar (os mesmos alunos avaliados sem o conhecimento da sua condição racial revelam resultados escolares melhores do que aqueles obtidos junto dos seus professores), (ii) na associação entre raça e crime que enviesa a perceção dos sujeitos negros em situações dúbias (em situações de crise qualquer objeto na mão de um negro é percecionado como arma), (iii) na associação entre raça e indisposição para o trabalho, (iv) na visão dos negros de si mesmos como inferiores. A análise é acompanhada de referências concretas a estudos científicos ao longo de várias décadas. Logo no começo da obra, Jorge Vala posiciona a relevância desta ao defender a importância de «compreender os mecanismos que mantêm o racismo, seja de forma mais escondida ou mais manifesta, no quotidiano e no funcionamento das instituições». Para esse efeito, considera necessário «analisar crenças, atitudes, sentimentos, normais sociais e funcionamentos institucionais que alimentam e legitimam o racismo, apesar da sua condenação pela democracia, pelos valores igualitários e pela liberdade, e apesar dos custos das desigualdades sociais que produz» (p. 14). Com efeito, o racismo nunca foi tão condenado como presentemente, o que parece…

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