descolonização da cultura

O termo descolonização da cultura refere-se a um processo de desarticulação das epistemologias ocidentais que colonizaram o mundo, impondo uma perceção de superioridade intelectual eurocêntrica (“racismo epistemológico”, Grosfoguel 2007). A descolonização da cultura é um movimento abrangente que procura expandir as fronteiras conceptuais e epistemológicas do mundo – a que Boaventura Sousa Santos (1995) dá o nome de “epistemologias do sul” –, que se considera ser dominado por uma norma interseccional branca, heterossexual, monogâmica e capitalista. Autores como Grosfoguel (2007), Marín (2009), de Lima Costa (2010, 2012) e outros, argumentam que essa norma prevalecente na esquerda europeia limita a diversidade de perspetivas e perpetua desigualdades estruturais.

Nesse contexto, a descolonização da cultura visa superar as epistemologias ocidentais ligadas a uma universalização cultural eurocêntrica, que se baseia em uma visão branca, heteronormativa, monogâmica, capitalista e cristã. Essa abordagem hegemónica tende a marginalizar e excluir outras formas de conhecimento, experiências culturais e visões de mundo, contribuindo para a perpetuação de desigualdades e injustiças.

Assim, a descolonização da cultura é um movimento de feição académica e ativista que visa desafiar as normas e abrir espaço para a valorização das múltiplas formas de conhecimento, práticas culturais e identidades subalternizadas, através de um processo de desnaturalização das hierarquias culturais, desconstrução de preconceitos e estereótipos, e promoção da pluralidade epistémica e ontológica, que não nega (na sua feição mais moderada, ao menos), o legado ocidental, mas antes procura elaborar uma crítica e avaliação dos paradigmas dominantes, ampliando as vozes e perspetivas historicamente marginalizadas. É um movimento que busca transformar estruturas e relações de poder, visando à construção de sociedades mais justas, inclusivas e equitativas. É, portanto, o resultado científico da pós-colonialidade.

Em razão da sua natureza crítica e de alternativa epistémica, a descolonização da cultura tem sido utilizada como ferramenta política por movimentos sociais e partidos de esquerda. Por essa razão, pode conduzir a (i) uma negligência dos processos de hibridismo e troca culturais ao longo da história, (ii) polarização e simplificação dos encontros culturais, donde pode resultar uma abordagem que prioriza a militância política em detrimento da compreensão rigorosa e despolitizada das dinâmicas culturais e históricas e (iii) afirmação de essencialismos e pureza culturais a contrario, a partir das identidades culturais vistas como oprimidas.

Citação recomendada: João Ferreira Dias, "descolonização da cultura," in O Estado da Teoria, acedido a Fevereiro 22, disponível em < https://joaoferreiradias.net/blog/descolonizacaodacultura/>.

 

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