O presente texto realiza uma sumária recensão do livro “White Rage” de Carol Anderson.

White Rage: The Unspoken Truth of Our Racial Divide é um importante livro para entender as relações raciais nos Estados Unidos. Refiro Estados Unidos, considerando o perigo da extrapolação teórica para fora das fronteiras do estudo-de-caso, ao embalo da colagem teórica com a realidade. O livro, assinado por Carol Anderson, aborda a persistente presença da raiva branca diante das políticas e lutas raciais nos EUA, enquanto resposta recorrente diante do avanço dos direitos civis e do crescimento da presença e ação política das populações negras no país. Anderson avalia diferentes momentos-chave que refletem a presença da raiva branca, como a Guerra Civil, a era da Reconstrução, o Movimento pelos Direitos Civis dos anos 1960 e a presidência de Barack Obama. Esses momentos-chave, que representam avanços de direitos das populações negras produziram reação adversa da população branca que se viu ameaçada nas suas estruturas de poder e privilégio. A “raiva branca”, de acordo com Carol Anderson, manifestou-se por meio de diversas estratégias ao longo da história, incluindo a supressão do voto negro, a segregação racial, a criminalização da pobreza, a retórica do “lei e ordem” e a desregulamentação económica. No entendimento da autora, essas estratégias foram instrumentos de entrave ao avanço dos direitos civis, de restrição ao acesso igualitário aos recursos e oportunidades e uma forma de manutenção das desigualdades estruturais. De modo a perpetuar a narrativa da sociedade pós-racial, a raiva branca tem sido escondida ou negada, enquanto se perpetua a diferenciação de tratamento e a precedência branca por parte das diversas estruturais sociais, económicas e políticas. Após a Guerra Civil deu-se uma reação violenta e opressiva face aos esforços para garantir direitos civis às populações negras, por meio das chamadas Leis Jim Crow, que institucionalizaram a segregação racial e negaram a igualdade de oportunidades. No período da Reconstrução, consequência da Guerra Civil, em que se procurou adotar medidas de inclusão das populações negras e garantia de direitos civis, a…

O termo descolonização da cultura refere-se a um processo de desarticulação das epistemologias ocidentais que colonizaram o mundo, impondo uma perceção de superioridade intelectual eurocêntrica (“racismo epistemológico”, Grosfoguel 2007). A descolonização da cultura é um movimento abrangente que procura expandir as fronteiras conceptuais e epistemológicas do mundo – a que Boaventura Sousa Santos (1995) dá o nome de “epistemologias do sul” –, que se considera ser dominado por uma norma interseccional branca, heterossexual, monogâmica e capitalista. Autores como Grosfoguel (2007), Marín (2009), de Lima Costa (2010, 2012) e outros, argumentam que essa norma prevalecente na esquerda europeia limita a diversidade de perspetivas e perpetua desigualdades estruturais. Nesse contexto, a descolonização da cultura visa superar as epistemologias ocidentais ligadas a uma universalização cultural eurocêntrica, que se baseia em uma visão branca, heteronormativa, monogâmica, capitalista e cristã. Essa abordagem hegemónica tende a marginalizar e excluir outras formas de conhecimento, experiências culturais e visões de mundo, contribuindo para a perpetuação de desigualdades e injustiças. Assim, a descolonização da cultura é um movimento de feição académica e ativista que visa desafiar as normas e abrir espaço para a valorização das múltiplas formas de conhecimento, práticas culturais e identidades subalternizadas, através de um processo de desnaturalização das hierarquias culturais, desconstrução de preconceitos e estereótipos, e promoção da pluralidade epistémica e ontológica, que não nega (na sua feição mais moderada, ao menos), o legado ocidental, mas antes procura elaborar uma crítica e avaliação dos paradigmas dominantes, ampliando as vozes e perspetivas historicamente marginalizadas. É um movimento que busca transformar estruturas e relações de poder, visando à construção de sociedades mais justas, inclusivas e equitativas. É, portanto, o resultado científico da pós-colonialidade. Em razão da sua natureza crítica e de alternativa epistémica, a descolonização da cultura tem sido utilizada como ferramenta política por movimentos sociais e partidos de esquerda. Por essa razão, pode conduzir a (i) uma negligência dos processos de hibridismo e troca culturais ao longo…

O presente texto aborda a questão da apropriação cultural, procurando identificar os consensos teóricos, bem como as formas de superação do problema.

O fenómeno da apropriação cultural não é novo. Todavia, ganhou destaque nos últimos anos com o crescimento do chamado movimento woke, tornando-se um debate politizado que envolve categorias como opressão, violência simbólica, mercantilização, descontextualização cultural, poder, privilégio, resistência cultural, apagamento cultural, autenticidade cultural, entre outras. O objetivo deste texto é, de modo sistemático, apresentar um quadro teórico coerente da questão da apropriação cultural. O contexto do debate Como afirma Fukuyama (2018), vivemos um contexto de polarização do campo social e político, transformado a partir do acentuar das questões pós-materiais e em que o ressentimento opera de modo determinante, seja o ressentimento daqueles que se sentem abandonados, os descamisados da globalização, que votam em partidos e políticos da direita radical populista, seja os ressentidos por razões de ordem identitária, como de raça, género, orientação sexual. É nesse contexto que emerge o movimento woke. Trata-se de um movimento de consciência social e política que se concentra na luta contra a opressão e na promoção da justiça social. Apesar de se ter popularizado nos últimos anos, especialmente após o assassinato de George Floyd, e se ter expandido para outras áreas, incluindo a academia, a política e a cultura popular, o termo woke tem origem na cultura hip hop dos anos de 1990 (Ahmed 2017). De um modo geral, o movimento woke centra-se na luta contra a opressão e a discriminação sob todas as formas, agregando o feminismo, o marxismo, o pós-modernismo e a teoria crítica da raça (Crenshaw 1991). Assim, o movimento woke visa uma maior igualdade e justiça social, através da identificação e desmonte das instituições sociais, como a lei e a educação, permeadas por mecanismos de opressão e desigualdade. Contudo, vários autores têm identificado os problemas do wokismo, ou seja, da sua transformação de movimento em ideologia, como seja a sua tendência para a atuação purificadora e moralista, do tipo igreja evangélica (McWhorter 2021 [ä]), para a tentativa de silenciamento de…

Angela Davis é uma importante teórica política, filósofa e ativista norte-americana, cujo trabalho abrange diversas áreas, incluindo feminismo negro, abolição do sistema prisional e luta por direitos civis. Sua obra tem sido influente para muitas pessoas e movimentos sociais em todo o mundo.

Angela Yvonne Davis é uma figura incontornável do pensamento (afroamericano) contemporâneo e da luta contra o racismo, homofobia e machismo. Filósofa, ativista dos direitos civis, feminismo negro, justiça social e abolicionismo penal, cuja obra é um marco na análise crítica da sociedade americana, do sistema capitalista e das suas formas de opressão, especialmente na produção de um racismo institucionalizado nos EUA. O seu pensamento é marcado por uma abordagem teórico-metodológica interdisciplinar, incorporando aportes do marxismo, do feminismo e do ativismo afroamericano. Uma abordagem própria da escola de pensamento da Teoria Crítica. Neste texto, apresenta-se de modo sistemático os principais aportes à academia e às lutas sociais que integra, trazidos pelo seu pensamento. No seu livro Women, Race and Class (Mulheres, Raça e Classe), de 1981, Angela Davis apresenta uma abordagem intersecional, defendendo que as opressões de raça, género e classe se encontram interrelacionadas e se reforçam mutuamente, sendo, portanto, impossível entendê-las de modo independente. Esta ideia está bastante clara na afirmação de que “[S]e queremos construir uma luta revolucionária que seja ao mesmo tempo anticapitalista, antirracista e antipatriarcal, devemos reconhecer que essas lutas são interdependentes. Não podemos lutar efetivamente contra a dominação racial se não lutarmos também contra a exploração capitalista e a opressão sexual” (p. 10). Essa ideia de intersecionalidade é estendida a outros grupos: “Não se pode, por exemplo, compreender a história da escravidão e seus efeitos na vida dos afro-americanos sem estudar também a história da opressão das mulheres, dos povos indígenas e dos trabalhadores em geral” (p.16). Apesar desse enfoque plural, o seu lugar de fala leva-a a dar particular relevo às mulheres negras, uma vez que, segundo ela, estas são sistematicamente deixadas de fora do movimento feminista branco, que tende a se concentrar nas experiências das mulheres brancas de classe média. Desse modo, Angela Davis coloca a mulher negra na condição de agente essencial da transformação social: “a compreensão da inter-relação de raça, classe e…

O fim do muro de Berlim e a consequente expansão da chamada democracia liberal, assente na separação e interdependência de poderes, na soberania popular por via da representação parlamentar e do voto, na pluralidade política, ideológica, religiosa, racial, sexual, entre outras, no primado axiológico da dignidade humana como fundamento dos direitos constitucionais de natureza fundamental, levou a que Fukuyama defende-se a teoria do “fim da história”. Um julgamento que viemos a saber precipitado. A crise de 2008 das dívidas soberanas foi responsável pelo agravamento das condições socioeconómicas de milhões de pessoas no Ocidente (e, naturalmente, não apenas), em especial a designada classe operária que se viu abandonada pelas transformações laborais impressas pela globalização, nomeadamente a transferência da produção industrial para a Ásia. A precariedade laboral abriu caminho para o surgimento de um ressentimento generalizado que precisava ser canalizado. Nas páginas imediatas à crise, a Esquerda (v.g. BE, Syriza, entre outros) foi capaz de aglutinar tais vozes, através de um discurso de natureza populista baseado na divisão entre uma elite corrupta e indiferente e um povo estrangulado pelos interesses económicos que tais elites protegiam. No entanto, esse alinhamento da Esquerda foi apenas uma pausa numa tendência que já se vinha manifestando e que ganhou enorme relevo a partir do homicídio de George Floyd: a concentração numa agenda pós-material, voltada aos direitos civis e de igualdade de diferentes minorias. A chamada agenda woke, de fortíssima dimensão urbana, tomou conta dos programas e da orientação dos partidos políticos de Esquerda, que foram abandonando ou secundarizando as lutas pelas condições laborais e a agregação sindical, um maior equilíbrio na redistribuição da riqueza, a pobreza material. Alimentada por uma populações urbanas com suficiente segurança económica, a agenda pós-material identitária da Esquerda vingou na interseção entre antirracismo e direitos LGBTIQ+, concentrando-se em diversas franjas e tipos de marginalização, que se manifestou em combates tais como pela descolonização da cultura, pelo antirracismo, do mais moderado ao mais…

Fragilidade Branca, conceito associado a Robin DiAngelo, integra um amplo campo teórico-militante antirracista. Operatoriamente interessante e válido, o conceito posiciona a discussão sobre o racismo no quadro de um sistema social ocidental marcado pela branquitude como um sistema de poder racial que desnivela a sociedade, mantendo as pessoas brancas numa circunstância de poder onde qualquer denúncia é objeto de rejeição, situação que denota a fragilidade branca em lidar com o problema racial.
Como todas as teorias sobre o racismo, a sua lente parte da sociedade norte-americana e embora operatória noutras geografias padece, amiúde, da devida contextualização.

Robin DiAngelo tornou-se num dos nomes mais respeitados da literatura sobre o racismo e admirados entre os membros da dita cultura woke. As suas propostas teóricas são desestabilizadoras, funcionando como instrumento de reflexão amplamente pertinente. Mas qual é o pensamento de DiAngelo, e o que é a Fragilidade Branca? O conceito de Fragilidade Branca integra um amplo campo teórico-militante antirracista. Operatoriamente interessante e válido, o conceito posiciona a discussão sobre o racismo no quadro de um sistema social ocidental marcado pela branquitude como um sistema de poder racial que desnivela a sociedade, mantendo as pessoas brancas numa circunstância de poder onde qualquer denúncia é objeto de rejeição, situação que denota a fragilidade branca em lidar com o problema racial. Como todas as teorias sobre o racismo, a sua lente parte da sociedade norte-americana e embora operatória noutras geografias padece, amiúde, da devida contextualização. DiAngelo parte de uma premissa essencial em sociedades amplamente racializadas como a dos Estados Unidos da América: a crença prevalecente na existência de diferenças biológicas e genéticas entre as raças, que vão além das evidentes, como o tom de pele, formato dos olhos ou textura capilar, e características não visíveis, mas socialmente construídas e imaginadas, como sexualidade, habilidades atléticas ou competências matemáticas. Trata-se de estereótipos que organizam a sociedade, mas que não correspondem à complexidade da realidade. A segunda premissa de DiAngelo, em linha com a literatura atual, é a de que a raça é uma construção social. É por aqui que começo. A Construção Social da Raça DiAngelo constrói o seu argumento a partir do estudo de caso dos EUA, um país construído entre a ideologia da liberdade e a realidade do genocídio, escravidão e colonização. Para resolver o problema, Thomas Jefferson pediu aos cientistas que confirmassem a crença de que as diferentes raças possuem diferenças entre elas, sendo os índios culturalmente deficientes, mas com propensão para a solução dessa falha, e os negros natural e…

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